Meu consolo diante da escrita, é que os poetas que ouço ou que ouvirei falar sobre suas obras ou comportamentos pervertidos, só foram ou serão reconhecidos depois da sua morte. Talvez, alguém leia essa prosa se eu morrer de câncer e for noticiada no “Balanço Geral”, ou se eu salvar uma idosa de um atropelamento e me jogar na frente de um carro em plena av. Rio Branco, e for noticiada como uma daquelas matérias sensacionalistas em que o repórter interroga minha mãe em prantos a caminho do meu funeral. Dizem às más línguas que ser poeta é ser romântico, para mim, nesse país que a sede é apaziguada com água de valão, é resistência. Não posso comer o poema, mas posso ter uma ceia farta com a poesia.

No Facebook, aos montes poetas se disfarçam de pessoas sem dotes culinários, muito menos criativos. A exposição de um poema é crucial. O espetáculo é vê-los nus, expostos de letras e dedos, diante de uma tela resolução 1024 x 768, o mais recomendável.

Ser mulher e poeta é fetiche para homens boêmios, que se esgueiram em bares da Lapa, Madureira, Guadalupe. Feministas, que amortecem os calcanhares todos os dias no ramal Saracuruna, meus sinceros agradecimentos. Stela do Patrocínio, que me fez chorar enquanto eu recitava seu poema, dentro de uma sala com mais de um quadro contemporâneo, e que de vergonha fui correndo para um lugar em que não pudessem me ver, meus mais sinceros agradecimentos. Cecilia Meireles, que me apresentou seus poemas dentro de uma caixa de livros usados no meu sexto ano do ensino fundamental, meu grande e sincero agradecimento. Carolina Turboli, poeta que expressou sobre aqueles que “foram estão sendo ou serão babacas” num poema, e que disse o que eu quis dizer e nunca consegui, meus sinceros agradecimentos.

O poeta não é um ser místico. Os sortudos que tem uma biografia a ser lida no Google, morreram bêbados, endividados, sem filhos, sem família e acima de tudo, sem nunca terem sido reconhecidos pela sua época. Aos que foram vistos ainda vivos, só tomaram vida depois de velhos, pois ninguém leva em conta os que são jovens. Coloco os poetas em gênero masculino, pois foram esses que povoaram por muitas décadas a literatura. As mulheres que foram reconhecidas seja antes ou depois da sua morte, contam-se nos dedos, as negras então, nem ouço falar.

Eu, ainda escrevo e funciono porque a poesia vive sem o poema. Ás vezes, me sujeito a escrever sobre amor, poesia e dor para que as pessoas se sintam representadas, pois sem isso há quem diga que não seja um poema. Mas se sujeitar é uma palavra de grande peso, quase uma âncora, o amor permeia o que eu digo e escrevo. A poesia funciona em qualquer área trabalhista. A dor é uma boa rima. Mesmo que ninguém leia, a utilidade do poema não nasce depois que você lê, ou antes em mim quando escrevo. Ela é um embrião a vagar em vários.

Por Valeska Torres


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