O filme sobre um homem caminhando por quartos amarelos e vazios acabou de fazer mais dinheiro que qualquer outro filme da história da A24
O sucesso de “Backrooms”, uma creepypasta criada coletivamente na Internet que se tornou um marco na história do cinema, mostra como a Internet tem a capacidade de mudar a vida das pessoas de forma surpreendente.
O estúdio independente A24, conhecido mundialmente por produções conceituais como “Hereditário” e o vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2023, Tudo em “Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”, e que teve com “Guerra Civil” sua maior abertura da história— arrecadando cerca de 25 milhões de dólares em 2024 — contratou um jovem YouTuber de 17 anos e lhe ofereceu 10 milhões de dólares para dirigir uma adaptação em longa metragem da série de terror sensação no YouTube sobre quartos vazios, tornando-o o diretor mais novo da história do estúdio e também o primeiro a alcançar o número 1 em bilheteria com seu primeiro filme de estúdio oficial.
Após 2 anos em desenvolvimento, com apenas 19 anos, o garoto já contava com dois atores indicados ao Oscar em seu elenco, Renate Reinsve (do recentemente premiado “Valor Sentimental”) e Chiwetel Ejiofor (“12 Anos de Escravidão”) como protagonistas. “Backrooms” teve uma estreia de 81 milhões de dólares nos Estados Unidos, superando em três vezes o recorde anterior do estúdio. Em apenas uma semana, o filme atingiu 100 milhões de dólares em bilheteria doméstica, tornando-se também o primeiro título do estúdio a alcançar essa marca em tão pouco tempo. Cerca de 88% da audiência encontra-se na faixa etária abaixo dos 35 anos, conforme levantamento feito pelo site DEADLINE.
As sequências de “gravações encontradas” que relembram a estética das fitas cassete não foram gravadas com câmeras reais e sim completamente programadas de forma gratuita na plataforma Blender, em que o diretor já possuía habituação com suas anteriores séries do YouTube.
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A origem das Backrooms

O vídeo original, “Os Backrooms (Gravação Encontrada)”, e suas sequências, que se tornaram um dos maiores fenômenos de terror da internet dos últimos anos, misturam terror psicológico e nostalgia com a sensação de estar em um lugar familiar, mas estranhamente diferente, conhecido na internet como “espaço liminar”. Sua origem remonta a maio de 2019, quando uma imagem de uma sala vazia com paredes amareladas, carpete desgastado e luzes fluorescentes foi publicada anonimamente no fórum 4chan.
A imagem enigmática foi registrada em 2002 durante a reforma do segundo andar de uma antiga loja de móveis em Oshkosh, no estado de Wisconsin e se espalhou rapidamente, dando origem a um movimento sem precedentes no formato de creepypasta, termo que remete a histórias de terror virais criadas na internet.
O terror independente e a nova geração de diretores

Parsons faz parte da nova onda de diretores independentes que andam subvertendo o gênero do terror e que começaram no YouTube, como Mark ‘Markiplier’ Fischbach, de 36 anos, recentemente conhecido pelo seu “Iron Lung: Oceano de Sangue” que se tornou um sucesso no início do ano e Curry Barker, de 26, que passou de dirigir esquetes de comédia na Internet para o perturbador “Obsessão”, que estreou nas telonas esse mês.
Outro grande diretor do chamado terror analógico (subgênero que emula mídias antigas, como fitas cassete) é Kyle Edward Ball, que também começou no YouTube e ficou conhecido mundialmente após o grande sucesso de baixo orçamento “Skinamarink”, que foi bastante comparado com Backrooms tanto pelo fenômeno comercial quanto pelo estilo de terror.
A obra retrata duas crianças que acordam no meio da noite e descobrem que seus pais desapareceram, juntamente com todas as janelas e portas da casa. O filme viral, produzido com apenas 15 mil dólares, tornou-se um fenômeno de bilheteria ao explorar medos primitivos como o escuro e a nostalgia de forma atmosférica e experimental. O diretor recentemente também assinou com o estúdio A24 para a produção de seu próximo filme intitulado “The Land of Nod”, que promete manter o clima claustrofóbico e obscuro que marcou sua obra anterior.
Parsons é o mais jovem da equipe e, de certa forma, era o mais improvável a alcançar as telonas. A estrela do filme, Renate Reinsve, elogiou o jovem diretor e afirmou que foi “empolgante” trabalhar com alguém que “não tinha assistido a tantos filmes”. “Ele foi impressionante”, disse Reinsve ao portal IndieWire. “Ele completou 20 anos durante as filmagens, tinha muita certeza do que queria fazer, e eu adoro o fato de que ele não assistiu tantos filmes. As referências dele são totalmente diferentes, então foi muito interessante trabalhar com alguém que simplesmente tinha essas ideias [cujas referências eu nem conhecia].”
A frase, “Eu não assisto muitos filmes”, causou bastante controvérsia antes da estreia do longa e levou alguns intrnautas a especularem, sem qualquer evidência, que diretores devidamente estabelecidos em Hollywood, como o produtor Osgood Perkins (“Longlegs”), estariam dirigindo o projeto nos bastidores, por baixo dos panos. Antes do início da produção, inclusive, Parsons revelou que se preocupava com a possibilidade de as pessoas não o levarem a sério como diretor de um longa-metragem.
O que a obra representa?

A obra serve não apenas como uma carta de amor à série de vídeos original, mas também ao gênero do terror de internet como um todo. Kane Parsons afirmou, em entrevista ao The New York Times, que a obra é, em grande parte, sobre “esse impulso biológico em mapear e tentar controlar tudo, como forma de explicar nossos conflitos internos e escapar do peso emocional deles”.
“A premissa explora essa ansiedade das pessoas em relação ao atual estágio de industrialização e urbanização em que vivemos”, disse o diretor. “O mundo está se tornando cada vez mais automatizado e solitário, nós temos tantas coisas à nossa disposição hoje, e mesmo assim parece que tudo o que possuímos significa cada vez menos.”
Parte da comunidade também interpreta a série como uma releitura contemporânea do “Labirinto de Dédalo”, famosa estrutura da mitologia grega projetada por Dédalo a pedido do rei Minos para aprisionar o Minotauro, em que os intermináveis corredores funcionam como uma metáfora para o inconsciente humano — um espaço vasto, antigo e repleto de enigmas, onde o indivíduo é constantemente confrontado por seus medos mais primitivos, como a escuridão e o existencialismo.
Em relação à trilha sonora, co-produzida pelo próprio Kane, a obra se inspira diretamente no projeto musical “The Caretaker”, de Leyland Kirby, especialmente no álbum “Everywhere at the End of Time”. A banda é conhecida na Internet por representar sonoramente a degradação progressiva da memória, identidade e da percepção, construindo uma narrativa musical sobre demência, nostalgia e esquecimento. Faixas como “It’s Just a Burning Memory” se tornaram emblemáticas dessa estética e acabaram sendo amplamente associadas à própria identidade da série, passando a influenciar diretamente a construção atmosférica da franquia, ajudando a consolidar a sensação de liminalidade, vazio e desconexão temporal.

Kane declarou em entrevista ao New York Times que sua adaptação dos sonhos seria a franquia de jogos “Portal” e que está analisando a possibilidade com “muita cautela e curiosidade”. Ele já havia anteriormente declarado a Valve, estúdio responsável pela franquia, como uma de suas maiores referências narrativas, pontuando especialmente como “Portal 2” e a saga “Half-Life” e sua forma não convencional de contar histórias o influenciaram mais em sua abordagem do que o modelo tradicional de Hollywood.
Segundo o portal americano Deadline, “Backrooms 2” já está em estágios iniciais de desenvolvimento, com o diretor em busca de um roteirista para o projeto. Nesse contexto, levando em consideração que cerca de 2,8 mil metros quadrados de cenários físicos foram construídos para a produção do longa, e que nem todo esse espaço foi efetivamente utilizado na versão final do filme, fãs sugerem que parte desse material possa ser reaproveitado para uma possível sequência, abrindo margem para redução de custos e continuação da atmosfera já estabelecida no primeiro longa.
A comunidade também destacou o mistério em torno de um possível projeto chamado “Splendor”, associado à recorrente simbologia do sol presente em obras anteriores e no próprio filme, incluindo easter eggs e elementos visuais como quadros ao fundo. O símbolo também apareceu no broche utilizado pelo diretor na estreia oficial do longa, que, quando questionado sobre seu significado, respondeu de forma enigmática, afirmando: “O Sol me falou para vesti-lo hoje, ele fala comigo”, intensificando as especulações sobre um novo projeto em desenvolvimento.
“Backrooms” chegou em 28 de maio e atualmente segue em exibição nos cinemas brasileiros.
Imagem Destacada: Divulgação/A24


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