Fechada desde o dia 30 de dezembro de 2016, a Biblioteca Parque Estadual virou um verdadeiro elefante branco no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Embora o Governo tenha prometido uma volta pronta, as portas encontram-se fechadas há seis meses; e com isso, um mundo de sonhos, oportunidades e expectativas ficam trancadas atrás dos cadeados.

Hoje, o Bookland não vai contar uma história com final feliz. Com seres fantásticos ou detetives em busca de pistas. Nossa coluna vem cumprir um papel social. Denunciar, reclamar, pedir… e acima de tudo, contar o quão importante a Biblioteca era, bem como todo o contexto histórico que a cerca. Vamos falar de livros sim, mas dos livros que foram tristemente calados pelo descaso.

Fundada por D. Pedro II no ano de 1873, a Biblioteca já teve muitos nomes e endereços. E só se fixou no atual (Av. Presidente Vargas) em 1943. Infelizmente, parte do seu acervo, com livros ainda da época do segundo reinado, foi perdido em 1984 em um incêndio que a deixou fechada por três anos. Com um patrimônio histórico inimaginável, e com uma riqueza de detalhes sem fim, o prédio teve seu conhecimento merecido em 1987, quando enfim, pôde se tornar acessível ao público fazendo a vez de um ambiente de pesquisa, estudo e visitação.

Em 2008, o imóvel que a abriga passou a fazer parte do plano de modernização das bibliotecas estaduais, e com isso, o propósito era ter um lugar mais democrático e moderno possível. Logo, depois de uma obra que durou sete anos, nascia em 29 de março de 2014 a nova Biblioteca Parque Estadual, que além de homenagear Vinicius de Moraes logo de cara – para começar com o pé direito e muita vibração positiva – também ganhou ramificações em Niterói, Manguinhos e Rocinha.

Além dos mais de 260.000 livros disponíveis para consulta, a biblioteca contava com exposições, programas culturais, programas de sustentabilidade e era um ambiente democrático e acolhedor. Englobava públicos de diferentes classes sociais, raça e credo. Por lá era possível ver estudantes, professores, doutores, frades Franciscanos e até mesmo ambulantes. Era um lugar em que as pessoas se sentiam à vontade e seguras.

E quando falamos de atender a todos os públicos, levamos isso muito ao pé da letra. Com o objetivo de ressocialização e reintegração, o espaço era usado também para um projeto deveras importante: o Coral Uma só Voz; que tem como integrantes moradores de rua. E o mais incrível nisso tudo, é que dentro da biblioteca eles eram “gente”. Tinham carteirinha com seus nomes e fotos e circulavam livremente sem o olhar, ora preconceituoso, ora amedrontado dos transeuntes.

Hoje, infelizmente, ao passar em frente ao prédio é possível ver a população dormindo embaixo de suas marquises para se proteger do frio e da chuva. Disputam lugar na calçada com os camelôs e com o caos que abriga aquela região central; voltaram a ser invisíveis para a sociedade.

A perda não foi apenas essa; escritores que estão começando agora tinham um espaço para sua inspiração e concentração. O lugar trazia à luz àquela alma bucólica que só nós, que vivemos de papel, caneta e silêncio sabemos reconhecer.

Sem contar, que com tantos predicados, a biblioteca ainda levava às crianças àquele caráter da “primeira vez”. Havia um projeto de incentivo à leitura e os pequenos podiam fazer visitas guiadas em meio aos livros. Eles não só tocavam nas páginas. Eles sentiam as palavras no seu sentido literal. Trabalhavam com tato, olfato e audição. O mesmo espaço era compartilhado pelos deficientes visuais que tinham acesso a obras inteiras em braile e ao audiobook. E isso era importantíssimo na construção do caráter e no saber lidar com as diferenças.

Infelizmente, desde a data de sua inauguração até seu fechamento, aproveitamos pouquíssimo de tudo que a Biblioteca Parque Estadual podia oferecer. Nós, da Woo! Magazine, que sempre incentivamos a leitura e escrita, lamentamos o atual cenário existente e torcemos para que isso mude o quanto antes; e também queríamos entender porque sempre a educação e cultura são sempre os primeiros a perder quando o assunto entra no mérito de “cortar gastos”.

Para os nossos leitores que quiserem conhecer o seu lindo trabalho social, o site com todos os programas, acervos e projetos ainda está no ar. E, claro, é sempre bom lembrar: “A gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte”- [Titãs]


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Kinha Fonteneles

Érica nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro, mas deveria ter nascido nesses lugares onde se conversa com plantas, energiza-se cristais e incenso não é só pra dar cheirinho na casa.
Letrista na alma, e essa bem... é grande demais por corpinho de 1,55 que a abriga.
Pisciana com ascendente E lua em câncer. Chora quando está feliz, triste, com raiva e até mesmo com dúvida.
Ah! É uma nefelibata sem cura.

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