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Black Mirror e a Tragicidade Contemporânea

Em Black Mirror, as distorções das relações humanas, influenciadas pela interferência da tecnologia na intimidade e no cotidiano, são destacadas pelo suspense e pela criatividade crítica que lembram o clássico “Além da Imaginação” por funcionarem, também, através de episódios independentes.

“Se a tecnologia é uma droga – e parece mesmo ser uma – então quais são precisamente os efeitos colaterais? Este espaço – entre apreciação e desconforto – é onde Black Mirror, minha nova série de televisão, está localizada. O ‘espelho negro’ do título é um que você encontrará em todas as paredes, em todas as mesas, na palma de toda mão: a fria e brilhante tela de uma TV, um monitor ou um smartphone”; assim o roteirista Charlie Brooker justifica o título ao jornal The Guardian, em entrevista de 2011 – mesmo ano de estreia. Em 2016, através da Netflix, maior público teve acesso aos 13 episódios de 3 temporadas arrebatadoras.

Como em 3%, o futuro não é promissor. É doloroso passar para o próximo episódio porque eles são muito bem sucedidos em comunicar certa carência afetiva refletida em atravessamentos entre humanos e máquinas… A tragicidade é esmagadora. Não falo da narrativa dos personagens apresentados, mas da terrível identificação que se cria com eles: uma sensação de que o destino é ver a humanidade reduzida a uma peça de engrenagem. Percebemos, sem conseguir enxergar como mudar, que chegamos – por um caminho de construção do desejo que sempre é pavimentado pelo ritmo do comércio – à sensibilidade cultural de uma sociedade tão controlada quanto a do livro de George Orwell “1984”.

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No quarto episódio, da segunda temporada, “Natal” com o ator Jon Hamm, as viradas do roteiro envolvem o espectador como faria o publicitário Don Draper. Mesmo assustados, estamos apaixonados, seduzidos e queremos mais uma dose. A falta trágica contemporânea é o excesso. É a canção presente em mais de um capítulo, “Anyone who knows what love is will understand”, que pode explicar de qual modo o humano – a criatura mais maravilhosa entre todas, conforme o coro de “Antígona” – pode almejar se conformar ao espelho negro e seus simulacros.

Por Carmen Filgueiras

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