“Só é preciso uma voz para mudar a História.”
O filme “Confirmation”, exibido na HBO em 2016, aborda um tópico que foi debatido à exaustão por aqui na última semana. Assédio sexual e como lidar com isso. Contando a história de Anita Hill, Kerry Washington vive a advogada e professora universitária que teve a coragem de denunciar um juiz federal da suprema corte recém nomeado pelo presidente dos Estados Unidos.
Procurada pelo FBI, Anita Hill não conseguiu se omitir. Na entrevista* (que acabou vazando), ela expunha o comportamento do seu ex-companheiro de trabalho. Clarence Thomas costumava fazer visitas até à mesa da Anita e lhe falar frases deslocadas do assunto de trabalho. Ele a assediava com frases agressivas e sexuais, a constrangendo e subjugando. Mostrava filmes pornográficos contendo cenas degradantes envolvendo mulheres e estupro, entre outras atitudes abusivas.

A veracidade dos relatos de Anita foi questionada. A colocaram em cheque por tê-lo seguido até um segundo emprego, o que ela depois classificou como erro de julgamento. Em seu depoimento público e gravado, a fizeram repetir todas as partes, até as mais desconfortáveis, na frente de seus familiares. Apesar da pressão e de todo o desconforto, Anita seguiu com o caso até o fim, se submetendo até ao teste do polígrafo (o qual Thomas se recusou a fazer).
A importância desse caso na história é notória. Não somente pela repercussão midiática, mas pelo procedimento pelo qual Anita passou, encorajando tantas outras mulheres a fazerem o mesmo. Após o conhecimento público do caso, diversas mulheres efetuaram denúncias, não somente em relação à Clarence, mas em relação a outros homens ocupando cargos altos.
O filme é indispensável para quem quer pensar assédio, feminismo e o lugar social da mulher. A história de Anita se confunde com a história de muitas outras mulheres, inclusive até hoje. Ainda não é fácil denunciar assédio e abuso. Ainda é comum ser descreditada. Ainda é difícil ser mulher. Mas filmes como “Confirmation” podem nos ajudar a pensar em um outro modelo de sociedade, enquanto parecemos ser os mesmos.
Nota: assédio e abuso em rede nacional
Semana passada a Rede Globo de Televisão se viu envolvida em dois casos pesados de assédio e abuso bem ali dentro de seus estúdios.
O primeiro, envolvendo a figurinista Su Tonani e o ator José Mayer, foi abordado com o que parece ter sido uma limpeza marketeira. Com camisetas com a frase “mexeu com uma, mexeu com todas”, atrizes da emissora apareceram em suas redes sociais proclamando uma suposta espontânea sororidade feminina. Em nota a emissora confirmou o afastamento do ator da emissora, mas não temos certeza se não serão férias pagas pela própria empresa.
Muito além das hashtags, slogans e posts nas mídias sociais, por trás de cada caso desse que se torna público há a história particular de uma mulher. História essa que por vezes parece menos importante que todo o fuzz da mídia.
Confirmando que os valores pregados pela emissora parecem encontrar dificuldades de aplicação prática, o programa desse domingo do reality “Big Brother Brasil” foi obra ilustrativa disso.
Ao começar o programa, o apresentador Tiago Leifert falou com uma expressão solene e cabisbaixa que os eventos da noite anterior, protagonizados pelos participantes Marcos e Emily, preocupavam a produção e o público.

Diante de imagens gráficas e inquestionáveis, apesar da escolha da edição em fazer tudo parecer apenas briguinha de casal, vimos o participante Marcos acuar a namorada contra uma parede, enfiar o dedo na sua face (o que já havia feito em outras ocasiões) e tacar repetidas vezes o crânio da moça contra o chão. Tudo acompanhado por um choro que oscilava entre desespero e teatro do homem abusivo.
Com todo o poder de fazer algo, a direção do programa se esquivou de expulsar o participante, deixando a responsabilidade para a vítima (“ah, ela foi chamada ao confessionário e incentivada a relatar CASO SE SINTA AGREDIDA”).
Diante de milhares de denúncias feitas diretamente na delegacia da mulher, a polícia civil decidiu intervir. Relatos apontam que após o questionamento o agressor saiu rindo, a vítima chorando*.
É preciso que a emissora seja capaz de mostrar que promove políticas efetivas de punição de condutas abusivas. Ou ficará a confirmação de que suas campanhas no sentido de preservação da vida da mulher não passam de oportunismo.
*Até à finalização do presente texto não havia resolução do caso.
Por Érika Nunes


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