Crítica (2): Águas rasas

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A maioria das culturas ensinam a lidar mal com a morte e o afeto, outras ensinam que a morte é o processo natural da vida e até comemoram quando uma pessoa próxima morre. Por esse motivo, sofremos bastante com a morte de uma pessoa próxima, não conseguimos aceitar a doença do outro, ficamos na expectativa de boas notícias, temos a necessidade de acreditar que os profissionais da medicina farão algum milagre e por fim culpamos todos e a Deus pelo falecimento, nos culpamos, ficamos com raiva, revoltados, melancólicos e, penso eu que seja um processo importante e necessário. Podemos ter dificuldade de aceitar, abandonarmos as atividades que mais amamos fazer e deprimirmos e até nos isolarmos.

Fazendo uma análise diferenciada do filme “Águas Rasas”, percebemos que seu fundamento se baseia um pouco nessa premissa. A história nos revela o luto de uma moça que perdeu a mãe com câncer, a personagem Nancy (Vivido pela atriz Blake Lively) estudava medicina, abandonou o curso e viajou para um lugar fantástico no México acompanhada de uma amiga. Sem a companhia da “fiel” colega bêbada, acaba indo a uma praia paradisíaca surfar, o lugar onde a mãe esteve grávida dela.

Surge na tela do cinema cenas marcantes de um belo lugar, que nos provoca uma imensa vontade de pegar o avião e passar férias relaxando neste paraíso. Nos apaixonamos  pela cor da água, pelos recifes de corais, ondas em forma de tubo, o sol, a areia, por cada detalhe. Para os surfistas as cenas iniciais devem ser perfeitas, quando a personagem encara ondas grandes e entra no mar para disputar as mais belas com mais dois outros surfistas, ao som de uma  música bastante animada, acaba por ser sensacional.

Através dos aplicativos do celular, Nancy troca mensagens com a amiga e através do facetime conversa a irmã Cloe (Sedona Legge) e o pai (Brett Cullen). O pai pede para Nancy voltar para casa, para terminar medicina e diz o  o quanto ela é capaz de ajudar os outros, mas ela se sente incapaz pela morte da mãe, necessitando do isolamento e das boas lembranças dessa.

Logo no início, o filme parece já se dividir em duas partes: a primeira que marca a chega de Nancy, a apresentação da personagem e o encantamento sobre o lugar; Já a segunda parte é demarcada pelo aprofundamento psicológico da personagem com os familiares e a amiga quando essa, antes de voltar a surfar, tenta se comunicar com eles.  Depois disso, a produção se mantém até o final no mesmo direcionamento, as sequências de surpresas e ação vividas pela personagem enquanto está no mar, incluindo ser atacada por um grande tubarão branco.shallows_xlgJaume Collet Serra, o diretor do filme, criou cenas fortes, sangrentas, agonizantes, que atrai a atenção do espectador, nos leva a uma reflexão sobre o estado da personagem, o drama vivido e a capacidade psíquica de enfrentamento do perigo e a coragem, até pelo momento do luto atual. Parece que enfrentar o tubarão representou simbolicamente encarar o luto a favor da própria vida, deixando de viver a pulsão de morte pela dor do luto e resgatar a pulsão de vida.

Um trabalho marcante do diretor e diretor de fotografia, foi o momento em que a personagem pega a câmera de um surfista morto (Uma Go Pro) e grava uma mensagem de despedida para o pai e a irmã, ao melhor estilo Bruxa de Blair.

Com uma direção de arte quase natural, riquíssima em detalhes, podendo ver até as formigas passeando na areia e a diferença de cor da água de acordo com as horas do dia, a produção acaba ganhando mais destaque.

A personagem Blake Lively consegue se entregar completamente as cenas e a sua personagem Nancy, que faz de tudo para escapar do terrível tubarão. Durante as cenas, temos a presença de um pássaro que convive com a agonia da personagem. A presença do anima, foi de grande importância ajudando bastante no equilíbrio emocional das cenas, e no resgate, afeto e determinação de Nancy para enfrentar o tubarão.

O filme, do inicio ao fim, demonstra o poder que o psicológico tem sobre cada um de nós, mostrando o quanto somos capazes de seguirmos em frente e enfrentarmos nossas lembranças negativas e desfrutarmos das positivas, entendendo que tudo pode ser passageiro. Como disse Niezsche, o eterno retorno.

Confira aqui o link da nossa primeira crítica do filme.

Por Marina Andrade

Crítica (2): Águas rasas
7.5Pontuação geral
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8.8