Crítica (2): Jogador Nº 1

Se um experimento fosse feito onde pessoas seriam abordadas na rua e perguntadas o nome de um diretor de cinema, sem dúvida um dos nomes mais ditos seria o de Steven Spielberg. Um dos cineastas mais bem-sucedidos do mundo, sua fama não é atoa: “Tubarão” (1975), “ET – O Extraterrestre” (1982), a trilogia “Indiana Jones” e “Jurassic Park” (1993) são alguns dos títulos que se tornaram clássicos de sua filmografia. Porém, recentemente o diretor pareceu ter empacado em uma série de dramas históricos sem muito carisma e de histórias de fantasia que passaram despercebidos pelo público. Com o objetivo de mudar isso e de resgatar a “magia” dos anos 80 e 90, surge “Jogador Nº1, uma ficção científica que funciona não só como um filme, mas como uma celebração da cultura pop em geral.

Baseado no livro homônimo de Ernest Cline, o roteiro se passa em um futuro próximo no qual, para escapar de uma realidade ruim, a maior parte da população se conecta a um jogo de realidade virtual chamado OASIS. Quando o criador desse mundo, James Halliday (Mark Rylance), morre, uma série de pistas e desafios é deixada para que os jogadores encontrem um easter egg que os fará herdar as ações do jogo. Nesse cenário, Wade Watts (Tye Sheridan), mais conhecido pelo seu apelido Parzival, é um jovem que mora em uma comunidade pobre e que passa o seu tempo caçando o “tesouro” online, que um dia descobre a resposta do primeiro desafio. Junto com seus amigos, Art3mis (Olivia Cooke), Aech (Lena Waithe), Daito (Win Moriaski) e Sho (Phillip Zhao), ele deve continuar a sua busca, mas ao mesmo tempo também atrai a ira de Nolan Sorrento (Ben Mendehlson), um executivo que deseja tomar posse do universo a qualquer custo.

Se o objetivo de Spielberg era remeter ao seu estilo antigo de aventura e fantasia, ele foi bem sucedido, pois a produção é uma das suas mais notáveis da ultima década. Sua direção está pontual e efetiva como sempre, criando cenas de ação divertidas e momentos descontraídos que se focam nos personagens. Porém, o que chama mais atenção é como trabalha visualmente com referencias à cultura pop em um roteiro abarrotado delas, em particular uma sequência na metade do longa que é uma homenagem ao trabalho de Stanley Kubrick (mas especificamente a “O Iluminado” (1980), mas com uma pegada de humor.

A quantidade extravagante de referências, porém, não é exatamente um mérito. Enquanto esses recursos são justificados de maneira crível pelo roteiro como parte do universo – o que também é consolidado pelo visual do mundo -, o script parece depender demais delas, não para o funcionamento da história, mas sim pelo apelo ao público. Isso acaba resultando nas cenas mais memoráveis de “Jogador Nº1serem a sua releitura de outras produções, e não o seu material novo.

Mesmo com todos os “elementos emprestados”, a produção se destaca pelo design original de suas invenções e de seus personagens, assim como seus efeitos. A computação gráfica óbvia, que incomodaria em qualquer outro filme, é utilizada com maestria como recurso estilístico para as cenas que se passam no mundo de video game, sem pretensão de parecer real.

Essas cenas de CG que se passam no OASIS são bem balanceadas com ação em live-action, e o elenco carrega muito bem ambos os ambientes. Tye Sheridan e Olivia Cooke são carismáticos o suficiente para dar vida ao que seriam protagonistas genéricos, mas os destaques de atuação vão para Mark Rylance, que faz o antissocial ex-dono da companhia sem parecer uma caricatura, e Ben Mendehlson, que parece ter nascido para fazer o velho estereótipo Spielberguiano do vilão executivo ganancioso.

Um retorno à forma para o veterano diretor, “Jogador Nº1é uma homenagem a cultura pop que perde a mão em alguns momentos, mas que funciona como uma experiência divertida e agradável. Assim como um bom CD de covers, que recicla melodias com uma cara nova, o longa reusa diversos ícones do entretenimento em meio a uma história original, com uma técnica mais que competente.

Crítica (2): Jogador Nº 1
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