Crítica (2): Mãe

Quando foi iniciada a divulgação de “Mãe!”, o novo filme de Darren Aronofsky, muito se falou sobre a sua similaridade com “O Bebê de Rosemary” (1968), de Roman Polanski. Um dos posters do primeiro era um óbvio tributo ao segundo, e o seu trailer mostrava uma construção de enredo suspeitamente similar ao clássico do terror, o que deixou o público perplexo. Teria Aronofsky, famoso por seu estilo único e surrealista, como visto nos bem-recebidos “Cisne Negro”(2010) e “Requiem Para Um Sonho” (2003), se rendido a máquina de remakes e reboots hollywoodianos? Depois de assistir “Mãe!”, fica claro que esse é não é o caso, muito pelo contrário: a produção é possivelmente uma das mais experimentais do diretor.

A trama é sobre “mãe” (Jennifer Lawrence), uma jovem mulher que vive em uma casa no campo com seu marido (Javier Bardem), um poeta que está sofrendo de bloqueio criativo. A paz do casal é interrompida quando um homem misterioso (Ed Harris) aparece a sua porta e é convidado para entrar e passar a noite. Logo, mais estranhos começam a chegar na casa, e enquanto a aflição da protagonista com essas pessoas cresce, o escritor parece não se importar.

A história inicia como um clássico terror psicológico, deixando visível suas inspirações no filme de Polanski – é perceptível que o casal principal tem seus problemas logo de cara, e que o marido está um pouco confortável demais com os desconhecidos que perambulam pela casa –, mas o enredo toma reviravoltas que chegam rapidamente a níveis surreais e caóticos, mostrando-se ser bem distinto das obras que referencia. O resultado é um filme que preza bastante estilo e se destaca tecnicamente, mas que também tem sua parcela de problemas.

“Mãe!” não chega a ser exatamente um estudo de personagem, como outros filmes de Aronofsky, porque é mais focado em passar, através da visão da protagonista, uma série de acontecimentos surreais, do que em se aprofundar na psique da mesma. Porém, a direção faz um ótimo trabalho em deixar o telespectador entrar na mente da personagem enquanto ela reage a situação extraordinária na qual se encontra, transmitindo perfeitamente tensão e confusão.

O longa inteiro é filmado na perspectiva de “mãe”, o que é alcançado não só pela utilização de planos subjetivos, mas também com uma câmera que se move junto com a personagem em planos longos, sempre a acompanhando de perto, como Aronofsky faz com Randy “The Ram” Robinson em “O Lutador” (2008). Close-ups no rosto da Jennifer Lawrence também são utilizados, talvez até excessivamente, para provocar esse efeito. Praticamente todas as cenas do filme são uma alternância entre o que a protagonista vê e a sua reação em plano fechado, o que é particularmente notável em momentos de diálogo: o clássico enquadramento “acima do ombro” é reservado para a principal, enfatizando que seu ponto de vista é o único sendo apresentado.

Essa introspecção é também bem aproveitada em momentos mais metafóricos, como quando vemos a interpretação visual de um poema que “mãe” lê sem escutar uma palavra do que está escrito.

Esse estilo é um dos principais contribuintes para o elemento de terror do filme, que é sentir o desespero e desamparo da personagem. Terror esse que é alcançado sem ficar apelativo em momento algum. Não têm uma quantidade absurda de barulhos estridentes adicionadas na pós-produção para obter sustos fáceis, como a maioria das produções do gênero adoram fazer.

Essa atmosfera de suspense só é possibilitada graças às atuações, principalmente, da dupla principal. Jennifer Lawrence consegue, apenas com seu rosto, dizer muito sem falar uma palavra, e Javier Bardem mantém um ar misterioso e distante em seu personagem que dá a impressão de ser, ao mesmo tempo, um velho conhecido e um completo estranho.

Porém, a produção não é perfeita. Uma das peculiaridades da trama que deve ser notada é a falta de nomes para os personagens, o que funciona bem com suas qualidades mais abstratas, mas que perde sentido na escolha de elenco, afinal, Jennifer Lawrence, Javier Barden, Ed Harris e Michelle Pfeiffer já são nomes suficientemente conhecidos para se passarem por anônimos. Esse tipo de abordagem causaria mais efeito com atores que ainda não são tão populares.

Em questão de narrativa, Aronofsky aposta em uma trama abstrata que levanta mais perguntas do que responde, o que acaba servindo tanto para bem quanto para mal. A adição de elementos bíblicos à história – o personagem de Javier Bardem é identificado apenas como “Ele” (o único crédito iniciando com letra maiúscula), além de alusões implícitas a pessoas e eventos sacros – a princípio parecem gratuitas, mas sob análise indicam que todo o enredo do filme é uma alegoria religiosa. Por mais que esse aspecto do filme seja realmente interessante, ele acaba se perdendo em suas próprias analogias, que passam mais um ar de aleatoriedade do que de sagacidade.

Além disso, o longa também sofre com o uso de efeitos digitais (principalmente o fogo computadorizado), que sabotam a imersão na história realizada pelo trabalho de cinematografia, e com a superficialidade da personagem principal, que não tem muitas características que não “interpretada por uma atriz famosa”.

No geral, “Mãe!” é uma produção que depende demais de suas metáforas para ser aproveitada como um terror ou suspense comum, mas mesmo assim ainda tem seus momentos tensos e é, sem dúvidas, bem feita, com um estilo único. É um filme que precisa de algum tempo para ser digerido e talvez precise de ser assistido mais de uma vez, mas que, gostando ou não, é inesquecível.

Crítica (2): Mãe
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