Crítica (2): O Doutrinador

“Eu sei o que aconteceu com você, mas isso não justifica o que você está fazendo.”

Miguel (Kiko Pissolato) é o retrato do brasileiro médio. Policial da Divisão Armada Especial (DAE), separou-se de Isabela (Natália Lage) e com ela divide a guarda de Alice (Helena Luz). Ou melhor: dividir, na verdade, não parece o verbo mais adequado. Quando a ex-esposa busca a menina na casa do pai, agradece, afinal, o tempo passado com ela. Em poucas palavras, obrigações parentais convertem-se em favores. Progenitor negligente, como muitos, Miguel ignora as restrições alimentares da filha. Mais grave que comidas com glúten, porém, é o desrespeito à autoridade materna. Apesar de todas as preocupações da ex, o protagonista insiste em levar a filha a um jogo da seleção. No caminho, uma bala perdida atinge Alice. Inconformado com a morte da criança, Miguel desvela mais uma de suas facetas. Além de machista,“O Doutrinador”, encarnação do senso comum nacional, é também truculento.

Mesmo antes da tragédia, a personagem já aspirava à condição de herói. Miguel integra a Operação Linfoma, responsável por investigar o governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis). Depois de prenderem o político, no entanto, os policiais voltam a lidar com situações corriqueiras, como uma reintegração de posse. Motivo de orgulho da filha, Miguel desdenha esse “trabalho de PM”. A vontade de lutar por algo maior ganha força quando ele perde sua grande admiradora. Com a menina ensanguentada nos braços, uma música exageradamente melodramática pontua a indignação do protagonista. Não há leitos para sua filha. E a culpa é de Sandro Corrêa, agora solto por um habeas corpus.

De forma previsível, então, “O Doutrinador” – codinome para o mascarado “herói” – busca vingança. A primeira vítima, igualmente previsível, é o governador. Movido tanto pelo ego quanto pelo ódio, Miguel não para, contudo, por aí. Prefeito, senador, presidenciável: todos perecem nas suas mãos. Nesse sentido, ele não pode dispensar a parceria de Nina Souza (Tainá Medina). Machista e truculento, como previamente descrito, o policial abusa de sua autoridade para ameaçar a jovem hacker. Nina se vê, assim, obrigada a colaborar, ainda que isso a coloque em risco.

Contraponto ao protagonista, a jovem questiona, durante a maior parte do filme, as suas atitudes. Função semelhante desempenha o policial Edu (Samuel de Assis). Em determinado diálogo, por exemplo, as duas visões contrastam-se. Se, por um lado, Edu defende o imperativo “proteger as pessoas”, Miguel, por outro, acredita no “atirar para matar”. A contestação mais eficaz, no entanto, parte da ex-esposa: “Que bom que a Alice não está aqui para não ver no que o pai dela se transformou”, afirma Isabela. Não obstante essas didáticas falas, porém, o privilégio de um único ponto de vista mantém intacto o “heroísmo” da personagem. Mesmo o voice-over final de Nina reitera essa condição.

O roteiro, adaptação da HQ homônima de Luciano Cunha, obviamente diz respeito à situação política do Brasil, em especial do Rio de Janeiro. As referências, demasiadamente explícitas, soam até ingênuas: um governador de iniciais SC, “não seja leviana” durante um debate, entre outras. Nem o product placement, escancarado aos olhos do espectador, escapa da abordagem superficial e preguiçosa. É quase inacreditável, portanto, que o cineasta Gustavo Bonafé tenha também dirigido o bom “Legalize Já – Amizade Nunca Morre”, ainda em cartaz.

“O Doutrinador” merece, por fim, um único elogio: não ter estreado antes das eleições. Tamanha descrença na política e semelhante fé na violência representam, em especial nos dias de hoje, um enorme desserviço.

* O filme estreia dia 1 de novembro, quinta-feira.

 

Crítica (2): O Doutrinador
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