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Crítica

Crítica: Legalize Já – Amizade Nunca Morre

“Isso aqui é a década da pobreza cultural.”

Entre uma tragada e outra no cigarro de maconha, duas personagens conversam. Jovens músicos, eles tentam formar uma banda. Para gravarem uma demo, percebem, precisam de verba. Se querem dinheiro, por sua vez, têm que organizar um show. Antes de conquistarem público pago, contudo, necessitam reconhecimento. Para isso, por fim, é indispensável uma demo. O pensamento cíclico, por eles atribuído aos efeitos da erva, sintetiza, na verdade, a lógica da indústria fonográfica. Em face de um mercado fechado, “descidas à boquinha da garrafa” e “cuidados com a cabeça do pimpolho” abafam os gritos de “Legalize Já”.

Mesmo diante de todas as adversidades, no entanto, Marcelo (Renato Góes) e Skunk (Ícaro Silva) não desistem. Unidos pelo gosto musical – os sons pesados de Dead Kennedys, Ratos de Porão e Sepultura – e pela rebeldia contra a sociedade, os adolescentes ensaiam no porão do argentino Brennand (Ernesto Alterio). De uma apresentação no “Encontro de Jovens Evangélicos com Deus” ao convite para tocar no famoso Garage, o Planet Hemp encontra, aos poucos, brechas no sistema. Em paralelo ao crescimento da banda, entre 1993 e 1994, o filme destaca a amizade entre seus dois fundadores – por isso o subtítulo “Amizade Nunca Morre”.

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Envolvido na trilha musical e no argumento, Marcelo D2 garante ao longa-metragem tanto uma viva sonoridade quanto um olhar afetuoso para o amigo Luís Antônio da Silva Machado, o “Skunk”. Nessa lógica, os diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé (“Chocante”) captam com sinceridade a interação entre os dois protagonistas. Góes (“Canastra Suja”) e Silva (“Sob Pressão”), em perfeita sintonia, não se limitam aos trejeitos das figuras reais – apesar de incorporá-las com precisão -, mas constroem carismáticas personagens. Fugindo, durante a maior parte dos 90 minutos, da dramatização excessiva, o filme se entrega, finalmente, a esse recurso. O duradouro close de Skunk, acompanhado de uma música indutora de emoção, certamente dissona do tom das demais cenas. O emprego desse cliché, comum às cinebiografias, não compromete, entretanto, o resultado geral de uma obra repleta de personalidade.

Em termos visuais, a paleta de poucas cores – quase em preto-e-branco – da fotografia de Pedro Cardillo (“Nada a Perder”) traduz um país acinzentado, perante um conturbado momento político. Em concordância com essa estética, o roteiro de Felipe Braga (“Trash – A Esperança Vem do Lixo”) situa historicamente a narrativa. Na loja onde Marcelo trabalha, aparelhos televisores anunciam manifestações em Brasília. O cenário musical da época, contudo, se isenta dessa discussão. Os pagodes de grupos como Cia do Pagode, Art Popular e Exaltasamba – para citar alguns referenciados – optam, antes, pelo trocadilho. Excluídas desse cancioneiro, realidades como o racismo e a violência policial marcam as vidas de D2 e Skunk. Falar sobre essas experiências torna-se imperativo. Faz-se necessário, assim, um novo modelo. O resgate de bandas como Ratos de Porão e Sepultura, bem como do rap americano, abre novas possibilidades nesse sentido.

O tempo passa. Em uma das últimas cenas, a camisa do Planet Hemp ocupa o varal de camelôs, lado a lado com artistas consagrados. Marcelo D2 é, hoje, um reconhecido músico. Denunciados em suas composições, no entanto, os abusos da polícia e a guerra às drogas permanecem atuais. Mais do que uma história da banda ou de dois amigos, portanto, “Legalize Já – Amizade Nunca Morre” clama por um Brasil mais colorido, diferente de sua cinza fotografia.

* O filme estreia dia 18 de outubro, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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