Crítica (2): O Jovem Karl Marx

Uma das figuras mais influentes e polêmicas da história, que é alvo de discussões ainda hoje, é o sociólogo alemão Karl Marx. Famoso por expor seus ideais políticos, sociais e econômicos em obras como “O Manifesto Comunista” e “O Capital”, que ajudaram nas revoltas dos trabalhadores durante a revolução industrial. Com uma reputação dessas, era inevitável que em algum momento fossem fazer uma cinebiografia sobre o teórico, e foi exatamente isso que aconteceu em 2017, com o lançamento do filme “O Jovem Karl Marx”.

A narrativa, que conta a história de Karl Marx (August Diehl), se inicia na época em que trabalhava como jornalista político na Alemanha, passando pelas diversas extradições que sofreu dos países onde morava, chegando finalmente em seu encontro com o filósofo Friedrich Engels (Stefan Konarske) com quem cria “A Liga Comunista” e escreve seu manifesto. O longa também mostra um pouco da vida pessoal de Marx, principalmente o seu relacionamento com sua esposa Jenny (Vicky Krieps) e as suas dificuldades de criar dois filhos em suas condições de vida.

O filme, obviamente, se passa durante a Revolução Industrial e, devido ao seu visual, constrói uma atmosfera de penumbra que se encaixa perfeitamente ao tema. A fotografia, assim como o figurino, não apresenta nenhum tom muito claro ou vibrante, priorizando as cores mais neutras e escuras. O mesmo é realizado com a iluminação, que se mantém ofuscada, com quase todas as cenas se passando em dias nublados e fechados.

A direção, porém, não é tão certeira assim. Sob comando de Raoul Peck, o diretor do documentário sobre racismo “I Am Not Your Negro”, o estilo do filme parece documental demais para uma narrativa de drama. Algumas cenas são narradas em voice-over, e o uso de slow motion e de enquadramentos peculiares dá a esses momentos uma cara de reencenação de programas de TV do History Channel.

A montagem é básica por quase toda duração do longa, mas também se mostra confusa em cenas mais agitadas, como por exemplo, quando Marx e Engels fogem da polícia francesa e parecem passar por cinco cenários diferentes, que não são muito bem conectados, em um espaço de tempo curto demais.

Já o roteiro faz um bom trabalho em mostrar a trajetória de Marx de forma descontraída, com algumas cenas de humor e romance cortando os diálogos mais sérios sobre ideologias. A maior parte dessas cenas serve para construir a amizade entre os dois escritores protagonistas, que é o ponto alto do filme, mas, por conta disso, a dinâmica de cada um com suas respectivas famílias se torna apenas uma subtrama, ou, no caso do relacionamento de Engels com Mary Burns (Hannah Steele), uma nota de rodapé.

Porém, onde o enredo falha no lado pessoal, ele acerta no lado profissional, com uma representação multifacetada do movimento trabalhista e de seus diversos líderes, que e fortalecida por performances notáveis do elenco de apoio, interpretando ativistas como Pierre Proudhon, Mikhail Bakunin e Wilhelm Weitling. Esse último que, especialmente, rouba a cena com seus discursos megalomaníacos.

Os atores principais são igualmente bons, sendo notável a fluidez com que trocam de língua durante as cenas, já que o longa tem diálogos em alemão, francês e inglês. A interpretação de Diehl, porém, acaba dando a Marx a mesma personalidade de “gênio insofrível” que é geralmente usada em cinebiografias para estabelecer como o personagem é inteligente.

Entretanto, o maior problema da produção é não dar um peso maior a significância do que os seus personagens principais estão tentando alcançar, já que a única dificuldade que encontram é um momento no qual Marx é expulso da França, mas que é facilmente resolvida na cena seguinte.

No final, “O Jovem Karl Marx” não chega a ser um filme ruim, mas falha em ser memorável ou significativo, mesmo contando a historia interessante de uma figura histórica peculiar. Enquanto o longa ainda tem seu valor por ter um bom ritmo, boa produção e boas atuações, sua execução o torna em apenas mais uma cinebiografia dispensável.

Crítica (2): O Jovem Karl Marx
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