Crítica (2): Paterson

Pensar a rotina sempre traz perspectivas opostas. Se por um lado se faz necessária para que qualquer processo evolutivo ou criativo possa se dar de forma organizada e frutífera, por outro pode ser a prisão em si. O cotidiano de um indivíduo proletário se pauta na repetição. Dias recomeçam com tarefas similares e o tempo se torna uma dimensão presente e potencialmente deprimente. Nas horas que se arrastam, dia após dia, a busca individual é o preenchimento dos vazios internos ou a pura e simples conformação. E nesta abordagem tudo pode soar pessimista, mas os diversos refúgios que a vida oferece podem fazer a mesma realidade transcorrer com mais leveza. O que nos move? O que nos faz levantar todos os dias e encarar o mundo? Sobre a rotina e sua melancólica beleza o longa “Paterson” muito felizmente trata.

Ao longo de 1 hora e 58 minutos, acompanhamos uma semana da rotina do motorista de ônibus Paterson (Adam Driver), nascido e criado na pequena cidade de Paterson, Nova Jersey. Casado com a solar Laura (Golshifteh Farahani), o rapaz leva uma rotina regrada regida por ele sem uso de tecnologias de qualquer tipo (como despertador e celular, por exemplo). Seus dias simples o tornam um grande contemplador da vida. Seja sentado em sua cadeira de motorista, seja observando a paisagem de seu local favorito, seja no bar onde todas as noites bebe uma cerveja, ou ainda tentando acompanhar o ritmo sonhador de Laura. Paterson então escreve poesias (sem rimas e métrica). Dilui o arrastado de sua conformada rotina em versos que tratam de amor e da vida. E, em seu caderno de notas, divide o melhor de si – consigo.

O roteiro bem estruturado dialoga com realidade do tempo, em uma abordagem lenta, como tendem a ser os dias de todos os trabalhadores. Por vezes arrastado, o filme desperta a angústia da vida em torno do trabalho. Mas com o refúgio da arte embalada por um amor parceiro, real e inspirador. A relação entre o protagonista e os demais personagens também é uma sacada interessante, pois ele, uma pessoa extremamente solicita e gentil, divide seus espaços com outros personagens que são seu contraponto em muitos aspectos, e isso se evidencia nos diálogos (especialmente entre o casal, no qual Laura acredita no potencial artístico do marido e o incentiva, critica…. Enquanto ele tem um posicionamento passivo sobre tudo que envolve sua esposa).

A narrativa explora a ideia de tempo nas opções de quadros utilizados. A atenção aos detalhes do cenário em takes fechados, nos detalhes da história e do dia-a-dia dos jovens. Detalhes que aos poucos envolvem os expectadores na monótona vida de um habitante comum desta pequena cidade. As cores pastéis, mas nem tão quentes, criam uma atmosfera acolhedora e interiorana fora de casa, enquanto que dentro o ambiente passeia na artística fissura de Laura por Preto e Branco (criando ambientes também acolhedores, mas um tanto perturbadores).

A simplicidade do longa também se expõe no humor tranquilo – comuns a quem observa a rotina com olhar dócil. Um fato curioso é que a ideia de repetição se apresenta não só nas etapas do dia do protagonista, mas em vários outros aspectos, como piadas prontas que recorrem de diferentes personagens e a aparição de gêmeos ao longo da trama (sem muito destaque ao fato, mas traçando um paralelo com a noção geral).

A direção de Jim Jarmusch consegue entregar junto a um filme de qualidade, sensações inquietantes. Despertando em quem assiste a empatia pela proximidade com a realidade de cada um, no ritmo das vivências no mundo real. Com elenco afinado expondo relações também tão próximas àquelas que vivemos (ou sonhamos merecer viver). E aqui cabe o destaque ao Adam Driver – um dos grandes nomes dessa geração de atores – seu trabalho é envolvente e até apaixonante, conseguindo gerar uma simpatia imediata com seu personagem.

O longa franco-alemão-estadunidense chega aos cinemas nacionais no dia 20 de abril e é uma excelente opção que pode te emocionar e fazer refletir.

Crítica (2): Paterson
9Pontuação geral
Votação do leitor 0 Votos
0.0