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Crítica

Crítica (2): Um Dia para Viver

“Semper Fi”

A expressão latina semper fi, abreviação de semper fidelis, sintetiza o espírito de união e parceria do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos (United States Marine Corps). Traduzido literalmente como “sempre fiel”, o lema dos Marines evoca os valores de honra e lealdade vinculados à corporação. Nos momentos finais de “Um Dia para Viver” (24 Hours to Live, 2017), contudo, as palavras ganham outro sentido. Em vez de reforçarem as relações entre uma associação e seus integrantes, abalam suas estruturas. Quando a personagem Travis Conrad (Ethan Hawke) diz “semper fi”, não exprime, assim, sua fidelidade. De outro modo, percebe-se enganado pelos próprios princípios carregados pela expressão. Entre amizade e trabalho, há, e isto ele percebe tardiamente, uma distância quase intransponível.

Requisitado assassino de aluguel, Travis aproveitava as férias na Baía da Flórida até que Jim Morrow (Paul Anderson), seu antigo parceiro, o procurou para um serviço. A Montanha Vermelha, organização bilionária, oferecia uma vantajosa recompensa financeira para matar Keith Zera (Tyrone Keogh), delator com provas comprometedoras. Após aceitar o serviço, o protagonista seduz Lin Bisset (Xu Qing), agente da Interpol responsável por proteger Zera, e rouba dados de seu celular. A policial, no entanto, reage e atira contra o criminoso. Salvo por um procedimento de ressuscitação, Travis ganha uma sobrevida de 24 horas em troca de relatar as informações conseguidas. A experiência de quase-morte desperta nele, porém, uma indignação contra a violência dos empregadores. Resolve, portanto, vingar-se.

Apesar de aproximar o filme do terreno da ficção científica, a premissa da ressuscitação encontra paralelo na realidade. O uso de tal técnica para a guerra, como anuncia Wetzler (Liam Cunningham), chefe da Montanha Vermelha, relaciona-se a tentativas atuais de criar um soldado sem sono, denunciadas por Jonathan Crary no livro “24/7: Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”. Colocar em questão a indústria por trás dos conflitos armados consiste, desse modo, no grande mérito da dupla Ron Mita e Jon McClain (“Robôs”) e de seu co-roteirista Zach Dean (“A Fuga”). O texto, redigido a seis mãos, não apresenta, entretanto, perspicácia semelhante à do argumento.

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A problematização da violência prejudica-se, ainda, por uma direção repleta de contradições. O cineasta Brian Smrz (“Herói”), dublê de formação, parece reproduzir nas sequências de conflito a mesma desumanidade criticada pelo roteiro. Os flashbacks vividos pelo protagonista, contudo, demonstram o arrependimento diante da vida de mercenário. Nessas cenas, a tonalidade dessaturada da fotografia, aliada à dinâmica montagem, estabelece uma diferenciada identidade visual. Abre-se, com isso, um espaço, mesmo que mínimo, para a reflexão sobre as atitudes de Travis.

Já no comando dos atores, Smrz soma acertos e erros. Se, por um lado, consegue trabalhar bem a corporalidade de Hawke (“Sociedade dos Poetas Mortos”) e Qing (“Looper: Assassinos do Futuro”), não alcança o mesmo sucesso em cenas mais estáticas. Não só os dois, mas o elenco como um todo falha em complexificar suas personagens. Talvez apenas o diálogo final, entre Travis, Jim e Wetzler, confira ao conjunto alguma carga dramática.

Ao mesmo tempo que se entrega ao gênero, por fim, “Um Dia para Viver” o revigora. Com discussões sobre indústria bélica, xenofobia e força da classe trabalhadora – ainda que criminosa -, o longa-metragem pincela um cenário político e atual em meio a vigorosas sequências de ação. Nada, infelizmente, se aprofunda, mas a latente subversão já acrescenta ao filme algo além de clichés do cinema convencional.

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* O filme está em cartaz desde a última quinta-feira, dia 7. 

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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