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Crítica

Crítica: 22 Milhas

“- Você está cometendo um erro.
– Eu já cometi muitos antes.”

Por herança da Guerra Fria, personagens russas aparecem, até hoje, como grandes vilões do cinema estadunidense. Em “22 Milhas” (Mile 22, 2018), estreia desta semana, uma bandeira tricolor decora a casa onde se ambienta a sequência inicial. Nela, habitam oficiais da FSB, o Serviço Federal de Segurança do país eslavo – a antiga KGB. Durante a rápida introdução, o embate entre eurasiáticos e americanos resulta em massacre: entre as vítimas, um garoto de 18 anos, baleado a sangue frio por James Silva (Mark Wahlberg).

Silva, protagonista do longa-metragem, integra a equipe secreta Overwatch, uma terceira via para resolver conflitos internacionais após os fracassos do exército e da diplomacia. Liderado por Bishop (John Malkovich), o agente enfrenta a missão de recuperar quatro quilos de césio-139, quantia suficiente para destruir seis cidades grandes. Conta, para isso, com a parceria de Alice Kerr (Lauren Cohan) e Sam Snow (Ronda Rousey). Como única pista, contudo, a equipe dispõe da ajuda de Li Noor (Iko Uwais), policial corrupto da fictícia cidade Indocarr. Em troca de um HD com a localização do isótipo radioativo, o asiático exige asilo político. O título “22 Milhas” refere-se, assim, à distância percorrida para escoltá-lo até o avião.

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Em paralelo ao enredo principal, o roteiro sugere uma vingança russa. O contexto pouco se esclarece, mas falas como “Estamos prestes a matar a ideia de que somos fracos” indicam iminente ameaça. Apesar dos diversos set-ups, no entanto, o payoff só acontece nos minutos finais. Em uma inesperada reviravolta, os estreantes no cinema Lea Carpenter e Graham Roland tentam surpreender o público. Mais conhecido pelo televisivo “Jack Ryan” (2018), Roland não sabe, contudo, se desvencilhar da narrativa seriada. O autor constrói, dessa forma, toda uma antecipação para um desfecho pouco satisfatório. Além disso, deixa pontas soltas pelo caminho. O divórcio de Alice, mediado pelo bizarro aplicativo Family Wizard, por exemplo, nada soma ao produto final. Por outro lado, a mencionada personagem revela-se um acerto da história. Não obstante o desnecessário passado conjugal, trata-se de uma figura feminina forte e confrontadora.

“Você acha que só porque sou mulher não sou capaz de violência extrema”, diz Lauren Cohan (“Boneco do Mal”) em determinada cena. O elogio previamente feito à sua personagem também se aplica à vivida por Ronda Rousey (“Velozes e Furiosos 7”), mas com uma ressalva: Rousey, um ícone da luta livre, merecia mais cenas de ação. Em vez de aproveitar o potencial da ex-campeã do peso galo do UFC, porém, o diretor Peter Berg (“O Grande Herói”) reserva a ela pouquíssimos confrontos – e todos com armas. Os embates corporais ficam, de outro modo, a cargo dos atores asiáticos. Nesse sentido, o indonésio Iko Uwais (“Operação Invasão”), tanto intérprete quanto coreógrafo, tem papel essencial. Contra a artificialidade das trocas de tiros e explosões, sua agilidade corpórea garante ao filme seus melhores momentos.

Esses poucos bons minutos representam, portanto, um verdadeiro alívio. Ao longo de mais de uma hora, afinal, diálogos tão apressados quanto o ansioso protagonista de Wahlberg (“Os Infiltrados”) tentam justificar o plot twist final. Entre antagonistas russos e asiáticos, “22 Milhas” repete, um por um, todos os clichés do gênero. A decisiva contribuição de Uwais aponta, no entanto, novos caminhos: estão eles fora do filme, para a infelicidade de seu espectador.

* O filme estreia dia 20, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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