Crítica: 6 Balões

6 Balloons

No topo do seu legado para literatura universal, Tolstói sempre será lembrado pela frase que abre “Anna Karenina”: “todas as famílias felizes são parecidas; as infelizes são cada uma a sua maneira”, ele diz. Se em mais de um século de publicação do romance essa máxima é verdadeira ou não, o fato é que em algum grau ela se aplica aos personagens de “6 Balões”, um estudo honesto sobre tragédia familiar que surpreende depois das grandes bolas fora que foram os últimos filmes “Original Netflix”.

Os balões, infelizmente, não são apenas os adereços festivos do feriado de dia de independência dos Estados Unidos, o célebre 4 de julho, ou da festa de aniversário surpresa que Katie (Abbie Jacobson) está preparando para o namorado. São também os que seu irmão mais novo Seth (Dave Franco) compra nas bocas de fumo em Santa Clarita, na Califórnia, mesmo depois de já ter passado por clínicas de desintoxicação.

Balões que no pior dos momentos se encontram, uma vez que é durante os preparativos que a jovem se dá conta de que ele já devia ter chegado para a comemoração. Encarregada, então, de buscá-lo em seu apartamento, ela percebe que algo está errado: a correspondência de Seth está intocada, como na vez da sua última recaída. Dessa constatação, o quadro só fica pior. Seu irmão, responsável pela filha pequena (Charlotte e Madeline Carel), está dopado e precisa voltar a internação. Assim, trancada no carro com uma criança e um homem entrando em crise de abstinência, Kate, que por trás da máscara de placidez sofre com o estrangulamento do transtorno de ansiedade, dirige pelas ruas da cidade em busca de algum hospital que o aceite. Tudo isso, enquanto seus amigos e o resto de sua família esperam na festa de aniversário.

O caos não tem hora nem lugar. Esse é o ponto do longa de estreia de Marja-Lewis Ryan, que mesmo com seu roteiro econômico, é eficaz em pôr o dedo nas feridas da vida privada. Não há celebração surpresa ou planejamentos cotidianos que não possam ser sabotados por traumas e esqueletos no armário; eles surgem quando querem em uma existência simultânea aos acontecimentos, não paralela.

Conduzida por essa batida, a experiência de “6 Balões” torna-se angustiante. Por isso, é importante não se enganar: por baixo da aura de retrato de família – resultado alcançado graças o trabalho de fotografia de Polly Morgan –, há uma atmosfera de inferno pessoal crescente. O confinamento no automóvel, onde boa parte da trama acontece, não é o suficiente para descrever a tensão, assim Lewis nos prende com os protagonistas em enquadramentos fechadíssimos. Coloca-nos encurralados como eles.

Uma das algumas escolhas visuais bem aplicadas pela diretora, que, mesmo principiante, trabalha com ideias interessantes. Em um dos momentos de maior choque do filme, somos surpreendidos com um plano audacioso em que ao mesmo tempo vemos Kate trocar a fralda da sobrinha, Ella, enquanto Seth injeta heroína. Peso dramático que também se intensifica quando a cineasta opta por nos colocar sob a perspectiva da criança através do uso planos subjetivos. Enxergamos as situações através de seus olhos, uma forma de lembrar que ela é um dos indivíduos – talvez um dos principais deles –afetados pela situação.

A alegoria imagética que o projeto insiste, entretanto, está relacionada à água e ao afogamento. Ilustrando a narração em off do que seriam as instruções do audiobook de autoajuda ouvido por Kate, acompanhamos durante todo o drama ela e o irmão inundados dentro do carro. Às vezes, soa mais literal do que devia, porém a intenção se faz clara e é importante para nos dar a dimensão da agonia.

Entretanto, nenhum desses recursos seria potente se não fosse a composição correta dos personagens principais. Conhecidos por seus trabalhos na comédia, Abbi Jacobson e Dave Franco encarnam com gravidade necessária seus papéis. Ela, uma pessoa sistemática que depois de tantos traumas só deseja que sua vida tome o rumo planejado, ele, uma pessoa frágil e consciente, todavia refém dos próprios erros. Não sabemos muitos detalhes de sua história pregressa, mas a dupla mostra intimidade e por isso é doloroso ver a dinâmica tóxica que se estabelece entre eles.

“Aconteceu alguma coisa para você ficar assim?”, no clímax Kate questiona. “Não, nada aconteceu”, é a resposta de Seth. “Nada”, uma palavra que aponta o vazio, mas muitas vezes é o caminho mais fácil para trocar o assunto, fugir da resposta real, incômoda. Incômodo: sentimento que é constante em “6 Balões”, um filme curto, mas efetivo como o puxar de um curativo band-aid. É ficção, mas a natureza da dor é tão real que para quem se identifica é difícil escapar ileso.

Crítica: 6 Balões
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