Crítica: A Mulher Mais Assassinada do Mundo

“Splatter horror” é a definição atribuída a filmes de terror que abusam da violência com efeitos visuais gráficos e grotescos, um gênero que surgiu nas telas nos anos 1960 e se mantém vivo nas produções B até hoje. O que muitos não sabem é que, assim como diversos elementos do cinema, o splatterhouse teve as suas origens nos palcos, mais especificamente no teatro francês “Grand Guignol”, que realizava peças sobre brutais assassinatos  durante parte da primeira metade do século 20. Baseado nesse fenômeno, surge o Original Netflix “A Mulher Mais Assassinada do Mundo”, que narra uma versão fictícia da vida de uma das principais atrizes dessas apresentações.

A personagem que dá o nome ao longa é Paula Maxa (Anna Mouglalis), uma atriz conhecida em Paris por ser morta de maneiras diferentes todas as noites nos palcos do Grand Guignol, espetáculos esses que têm atraído tanto a curiosidade como a revolta do público. Quando a violência no bairro aumenta, Jean (Niels Schneider), um jovem repórter, pesquisa uma relação entre as apresentações e os assassinatos que ocorrem na cidade, ao mesmo tempo em que desenvolve um relacionamento com Paula e descobre que alguém tem planos para assassiná-la de verdade.

Com uma história dessas, é difícil não enxergar a influência dos giallo – suspenses de assassinato italianos dos anos 1970 – no longa, tanto por seus personagens, principalmente o jornalista investigativo, quanto pela sua trilha sonora de jazz experimental. Porém, ao contrário do gênero ao qual paga tributo, o roteiro de “A Mulher Mais Assassinada do Mundo” não esconde muitos mistérios em sua obviedade.

Sem saber se é um suspense ou um drama, o script falha em ser ambos. Suas tramas e subtramas parecem um amontoado de ideias mal aproveitadas – algumas que são abandonadas ao longo do filme – e nenhuma das discussões que parece propor têm algum propósito. “O que acontece na sua cabeça é pior do que o que acontece no teatro” diz um dos intérpretes para um grupo de cidadãos que protestam na frente do local, parecendo abrir espaço para uma crítica sobre censura, tema que, infelizmente, é esquecido logo depois.

Se partes da história parecem existir sem motivo, a direção de Franck Ribière é um acompanhamento perfeito de técnicas gratuitas. Vários elementos são utilizados apenas uma vez durante a produção e parecem totalmente deslocados: os jump cuts na cena inicial, o lettering que apresenta a personagem principal escrevendo seu nome na tela, um diálogo no qual Paula quebra a quarta barreira e fala com a audiência, um voice-over explicativo desnecessário, enfim, um turbilhão de superfluidades.

Onde o longa se destaca porém, é em seu design, que é conciso ao representar a versão de Paris dos anos 1930 em todo seu glamour e sujeira. Também são notáveis os efeitos práticos, que são tão grotescos e eficientes como em uma produção slasher dos anos 1980, com a notável exceção de uma cena que usa de computação gráfica – que em si, não seria um problema – para representar um dos efeitos utilizados no palco pela trupe do Grand Guignol.

Tudo isso é amarrado com uma fotografia que remete bastante ao gênero noir, utilizando de um alto contraste entre sombras e cores fortes. Essa referência, porém, não é sempre bem-sucedida, já que diversas cenas parecem ter sido modificadas na pós-produção para ficarem mais sombrias e acabam tão escuras que são de difícil compreensão. Já nas cenas de flashback, acontece o contrário: o branco é estourado demais, e as sequências também se tornam ininteligíveis.

A Mulher Mais Assassinada do Mundo” parece mais um emaranhado de ideias diferentes do que algo que segue uma linha de raciocínio lógico. No fim, é difícil levar a sério um longa que coloca uma cartela explicando o que aconteceu com seus personagens na vida real e contradizendo o final do próprio filme. A produção é mediana e decepcionante, mas a essa altura do campeonato, ninguém espera mais do que isso de um “Original Netflix”.

Crítica: A Mulher Mais Assassinada do Mundo
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