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Crítica

Crítica: O Banquete

“Isso não é um jantar, querido. Isso é um verdadeiro banquete. Você não imagina.”

Falecido recentemente, Otávio Frias Filho enfrentou, durante a década de 1990, um inusual processo. O ex-presidente Fernando Collor de Mello acusou de calúnia três jornalistas da Folha de S. Paulo, veículo que dirigia, após a publicação de um par de notas. Pela primeira vez, um chefe do Estado brasileiro processava um órgão de imprensa durante o mandato. A resposta não tardou. No dia 25 de abril de 1991, o então editor-chefe redigiu uma incisiva carta aberta, cujo texto aproximava o governo Collor da experiência ditatorial anterior: “eu defendo para cada um a possibilidade de expressar o que pensa sem ir para a cadeia por isso, enquanto o sr. se agarra à lei de imprensa do regime militar”, escreveu Frias Filho. Vinte e sete anos, cinco presidentes e dois impeachments mais tarde, a cineasta Daniela Thomas retoma a noite da publicação no longa-metragem “O Banquete” (2018), estreia desta semana.

Personagem criada a partir do jornalista da Folha, o introspectivo Mauro (Rodrigo Bolzan) comemora aniversário de casamento com a extrovertida Beatriz (Mariana Lima). Para celebrar, a amiga e sócia Nora (Drica Moraes) organiza um refinado jantar, com comidas afrodisíacas e vinho italiano. O clima festivo, no entanto, rapidamente dá lugar à tensão. Enquanto Plínio (Caco Ciocler), marido de Nora e advogado de Mauro, tenta reverter um mandato de prisão, desvela-se um antigo caso entre sua mulher e seu cliente.

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Confinada em uma mesa de jantar, toda a ação depende do elenco para não resultar enfadonha. Nesse sentido, pode-se afirmar que as atuações sustentam o filme – Drica Moraes (“Getúlio”“Bruna Surfistinha”), em especial, destaca-se com uma assertiva interpretação. Além de uma competente diretora de atores, Daniela Thomas (“Terra Estrangeira”, “Linha de Passe”) demonstra, contudo, igual domínio dos recursos audiovisuais. Exemplo disso, a trilha musical, composta por Antonio Pinto (“Cidade de Deus”“A Hospedeira”), referencia os clássicos detetivescos ao construir um misterioso clima com batidas de jazz. A fotografia do peruano Inti Briones (“Pequeno Segredo”, “Vazante”), por sua vez, não só aproveita a intensidade dramática dos closes, mas também cria interessantes jogos com espelhos. Esses reflexos, imagens tão idênticas quanto distorcidas, ilustram a dinâmica das personagens, para as quais atuar é uma “questão de sobrevivência” – vide a profissão de Bia, atriz de teatro.

Se a vivacidade da direção dribla o esgotamento da fórmula, o elogio não se repete, porém, em relação ao roteiro. Em uma mesma obra, Thomas tenta abarcar temas complexos como a política e o amor. Como resultado, nem a inspiração histórica da resistência contra a ditadura nem a filosófica d’O Banquete de Platão se desenvolvem plenamente. Torna-se tarefa difícil entender, assim, os motivos por trás das referências e, consequentemente, as atitudes das personagens.

Cruelmente expostos, os convidados para “O Banquete” de Daniela Thomas transitam entre uma moralidade duvidosa, uma filosofia de botequim e muitas piadas constrangedoras. Aos poucos, o texto cansa o espectador e promove pouquíssima – ou nenhuma – reflexão. No fim, nem mesmo as ótimas atuações, favorecidas pelos perspicazes usos da fotografia e da música, mantêm constante o interesse do público. Resta, de outro modo, a lamentação por uma obra que nunca alcança, ao longo de suas quase duas horas, a grandiosidade prometida por seus temas.

* O filme estreia dia 13, quinta-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação, e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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