Crítica: Acrimônia

“Quando uma mulher negra tem raiva, é um estereótipo.”

“Amargura”, “raiva”, “maldade”. A partir dessas definições, Tyler Perry (“O Halloween de Madea”) apresenta o substantivo “Acrimônia”, título de seu novo filme (Acrimony, 2018). Presença recorrente no Framboesa de Ouro (Razzie Awards), o comediante estadunidense tenta, agora, a sorte em outro terreno, o drama. Conta, para isso, com a parceria da indicada ao Oscar Taraji P. Henson (“O Curioso Caso de Benjamin Button”), forte nome do gênero. O esforço da dupla, reunida mais uma vez após “I Can Do Bad All by Myself” (2009), certamente não passará despercebido. Filmado em apenas oito dias, o infame longa-metragem abre duas possibilidades de reconhecimento. Por um lado, premiações paródicas devem preencher as estantes de Perry. Por outro, a presença em listas de piores do ano – e quiçá da história – pode atrair um inesperado público, como aconteceu com “The Room” (2003).

Explicada no começo, a palavra “acrimônia” descreve Melinda (Henson / Ajiona Alexus, quando jovem). Obrigada pela justiça a consultar uma psicóloga para controlar sua raiva, a protagonista rememora a relação com Robert (Lyriq Bent / Antonio Madison, quando jovem). O cafajeste ex-marido, conta ela, aproveitou-se da herança da então esposa – 350 mil dólares deixados pela mãe – para investir em um projeto pessoal fadado ao fracasso. A Força de Vento Gayle, uma bateria recarregável, nunca chamava a atenção do potencial investidor, o milionário Sr. Prescott (Douglas Dickerman). Enquanto Melinda custeava estudo, moradia, alimentação e transporte, Robert devotava-se a aprimorar o protótipo. Um dia, contudo, eventos surpreendentes despertaram a acrimônia da personagem.

Como em seus outros filmes, Perry parece preocupado com a questão da representatividade. A trilha musical – repleta de canções de Nina Simone – e a composição do elenco indicam o espaço reservado a talentosos artistas negros. Em termos narrativos, no entanto, o cineasta toma caminhos tortuosos. Se, de início, Melinda contesta o estereótipo da mulher negra raivosa, ao fim, entrega-se a todos os preconceituosos sensos comuns. Se, ainda, as poucas personagens brancas tentam, a princípio, se aproveitar das negras, o cenário muda com uma improvável redenção.

Além dessas contradições, o diretor e roteirista peca também por um didatismo excessivo: a incessante narração de Henson repete os diálogos, que, por sua vez, explicitam as imagens. Em tom novelesco, a voz da atriz declama memoráveis frases como “A verdade sempre chega quando um homem goza” (“The truth always comes when a man cums”) – jogo com a sonoridade dos verbos ingleses to come (chegar) e to cum (gozar). Outro recurso questionável, cartelas introduzem verbetes. Ao já mencionado “acrimônia”, somam-se “romper”, “lástima”, “desvairado”, “inexorável”. É possível imaginar Perry folheando um dicionário em busca dos termos. Ao acreditar-se, enfim, mais inteligente que o público, o norte-americano alcança um indesejado humor, ausente em suas comédias.

Contemporâneo de campanhas como #OscarsSoWhite e #TimesUp, o longa-metragem demonstra particular falta de sintonia. Sua irresponsável abordagem prova, afinal, que protagonismo negro e feminino não garante quebra de estereótipos. Tyler Perry, conhecido por caracterizações machistas na série Madea”, não esconde, mais uma vez, sua perspectiva misógina: as personagens femininas são paranoicas, e as masculinas, mal interpretadas.

Transitando entre o “tão ruim que é bom” e o ofensivamente ruim, “Acrimônia” suscita, por fim, distintas reações. Parte do público debochará das situações inverossímeis, dos diálogos absurdos e das interpretações excessivas. Impressionados com o monumental fracasso, entretanto, os desavisados sairão do cinema incrédulos.

* O filme estreia dia 9, quinta-feira.

 

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