Crítica: Albatroz

“Não dorme. Acorda.”

Como Alex DeLarge, protagonista de de “Laranja Mecânica” (A Clockwork Orange, 1971), Simão se senta acorrentado em uma cadeira. Sobre seus olhos, acavalam-se as mais variadas imagens. No filme de Stanley Kubrick, a violência figurada desestimulava a concreta. Em “Albatroz”, por sua vez, ao clique da câmera corresponde o do gatilho.

Fotógrafo profissional, Simão Alcóbar (Alexandre Nero) visitava Jerusalém quando um retrato mudou radicalmente sua vida. O registro, acusado de “impulsivo e irresponsável”, rendeu-lhe uma série de premiações internacionais. Em contrapartida, porém, colocou em xeque um importante compromisso: aquele firmado entre arte e realidade.

Arrependida, a personagem toma a significativa decisão de fotografar sonhos. E o filme a acompanha. A montagem de Fernando Stutz (“TOC – Transtornada Obsessiva Compulsiva”) investe em uma collage de inspirações surrealistas. O recurso, embora instigante, torna-se quase insuportável quando usado em excesso. Pesadelo para o espectador fotossensível, o artifício tampouco deixa ileso o público comum. Apesar da duração relativamente curta – pouco mais de 90 minutos -, o longa revela-se uma estonteante prova de resistência.

Simão não é, contudo, o único artista em conflito. Narradora da história, a escritora Alicia Henricksehn (Andrea Beltrão) também transita entre o imaginário e o real. Seu mais novo livro, “Albatrozes”, muitas vezes se confunde com a sua vida. Enquanto conversa com o detetive Kenny (Gustavo Machado), portanto, ela desperta ainda mais dúvidas acerca do relato.

Além de Alicia, outras duas mulheres se relacionam com o protagonista. A atriz de teatro Rénne (Camila Morgado), por um lado, simboliza a crença no poder transformador da arte. Nesse sentido, o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen é seu grande aliado teórico. A cantora Cats (Maria Flor), esposa de Simão, representa, por outro, uma arte falida, entregue às normas do mercado. No lugar de canções autorais, afinal, ela compõe jingles publicitários.

Para apresentar o conflito entre arte e mercado, o roteirista Bráulio Mantovani (“Tropa de Elite”) mergulha no campo da neurociência. A sinestesia – fenômeno no qual pessoas associam cores a notas musicais – acomete Simão. Quando conhece Catarina, assim, sua voz equivale a um tranquilizante azul arroxeado. Na cena (foto), Cats performa em uma pouco criativa cópia do Club Silencio, enigmático cenário do clássico lynchiano “Cidade dos Sonhos” (Mulholland Drive, 2001). Uma vez entregue à indústria, no entanto, essa cor inicial jamais se repete.

Apesar de referenciar-se a David Lynch, “Albatroz” nunca parece entender a dimensão do onírico no cineasta. Dissociada de um anarquismo surrealista, a busca por explicações científicas de Mantovani converte a collage de Stutz em mero maneirismo estético. Em vez de uma obra aberta, então, tem-se um quebra-cabeças – de ordenações diversas, é verdade, mas todas pré-definidas. De todo modo, as complexas personagens, fortalecidas por sólidas atuações – especialmente da dupla Nero (“João, o Maestro”) e Beltrão (“Jogo de Cena” emprestam novas camadas ao texto.

“Albatroz” é, em suma, um filme de imagens tão violentas quanto aquelas que pretende denunciar. Nessa lógica, a publicidade de Cats remete à de Goebbels, e gritos em alemão contrapõe-se à capital israelense e à judia Rénne. Não obstante seu vasto repertório intelectual, porém, o diretor Daniel Augusto (“Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho”), doutorando em Filosofia pela USP, fracassa em salvar “Albatroz” de seu inevitável destino: tornar-se algo atroz.

* O filme estreia dia 7 de março, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Globo Filmes

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