Quando pensamos no cinema francês, é possível que predomine uma quantidade razoável de esteriótipos. Logo vem a mente nomes como Truffaut, Godard, Renoir ou até mesmo o mais recente “O Fabuloso Destino de Amélie Poulin” , que se tornou símbolo cult. O fato é que isso talvez não seja a realidade, e “Assim é a vida” comprova isso, sendo uma comédia contemporânea. Se existe essa variedade no audiovisual francês, o que uma comédia vinda dele tem a oferecer ?
O que logo chama a atenção é a excentricidade de alguns pontos do filme. Não é um roteiro absolutamente original, e muito disso vem do gênero dele, mas há algumas saídas e decisões interessantes. Acompanhamos uma grande festa de casamento, realizada em um castelo de séculos passados, desde seus bastidores até seu desenrolar. O ponto de vista é do homem que gerencia a organização da festa e isso se estabelece desde a cena inicial, que tem como função apresentá-lo. É em torno dele que a maioria das situações ocorre, mas também há espaço para coadjuvantes e situações a parte, durante toda duração do filme, que corresponde a praticamente um dia completo.
Dentro desse limite temporal, e da proposta de narrativa que o filme nos apresenta, que está a graça que ele se pretende, funcionando com originalidade muitas vezes, mas beirando o escracho em outras. Não apenas nas piadas isso está presente, como em algumas atuações que são o limiar entre o cômico e o canastrão. Vale mencionar que alguns motes podem não funcionar por se tratar de um contexto tipicamente francês e, por isso, a ligação cultural com o país acabe afetando sua eficiência para outras audiências.

Se por um lado não foge de esteriótipos e clichês de uma comédia, por outro existe alguma compensação disso na medida em que esses aspectos são mantidos sob controle, não se excedem muito. É louvável que haja esse contraponto, mas que se evite soluções e caminhos fáceis. Também é curiosa e bastante divertida a forma com que pequenas histórias, quase anedóticas, vão se desenvolvendo em paralelo e eventualmente se chocam. É como um retrato cotidiano que se torna superlativo.
Outros pontos que são interessantes são algumas escolhas técnicas de direção, de trilha sonora e fotografia. Não é um estilo de filme que pede uma execução sofisticada de tais questões, e nem faz isso em plenitude, mas que apontam alguns diferenciais. Vez ou outra algum plano-sequência que é utilizado em meio à movimentações de personagens, os acompanhando enquanto eles dialogam, cai muito bem, dá ritmo e dinamismo para a obra. As músicas que tocam durante a festa são clichês que recebem boa escolha e conseguimos até mesmo ouvir música brasileira dentre elas. A paleta de cores é bem bonita, vivaz, quente. Se tratando de um filme que quer provocar o riso e ser alegre, trata-se de uma escolha acertada que, combinando com a iluminação, torna a estética chamativa. Nesse sentido, a cena que se dá no salão de festas, mais para o fim do filme, somente iluminada com velas, ilustra isso de forma contundente. Não é como se fosse estritamente necessário de ser usado, mas é de alto bom gosto.
Apesar disso, “Assim é a vida” está longe de ser perfeito. É divertido e consegue cumprir aquilo que sua premissa nos apresenta, mas se distancia bastante de algo marcante. Não é o tipo do filme em que ficamos pensando depois de assistir e aquilo que é exagerado demais incomoda. Mesmo assim, é impossível deixar de comparar com grande parte das comédia brasileiras que aqui se produzem e que não conseguem ser uma obra que seja, no mínimo, eficiente como essa.

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