Crítica: Bingo – O Rei das Manhãs

Tirem as crianças da sala

Se tem uma coisa que o brasileiro já não conhece há tempos é o conceito e a execução de “limites”. Se olharmos para o que tínhamos de programação infantil na TV nas décadas de 70/80, então, nem se fala. Isso é resultado, em parte, da hiper sexualização do cinema nacional, com suas pornochanchadas, e como uma espécie de “grito de liberdade” após o período de ditadura militar. Esse liberalismo nacional, rendeu pérolas nas telonas e nas telinhas. E uma dessas ganha agora sua cinebiografia, com o nome trocado, mas com muita personalidade em “Bingo – O Rei das Manhãs“.

Numa longa carreira como montador de filmes nacionais e internacionais, como “Cidade de Deus“, de Fernando Meirelles, e “A Árvore da Vida“, do Terrence Malick, Daniel Rezende faz sua estreia como diretor de longas. Como ele mesmo declarou em uma entrevista, saiu da salinha escura onde “xingava” os diretores para assumir uma posição em que poderia ser xingado pelos demais realizadores. Contudo, tendo ou não problemas durante a execução, o resultado final é um deleite para nossos olhos e ouvidos, trazendo um personagem que marcou a geração de uma época, considerada por muitos, hiper cafona e controversa.

A cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos atores que viveram o palhaço Bozo na televisão, foi escrita por Luiz Bolognesi (“Bicho de Sete Cabeças” – 2000). Nela, conhecemos um ator de pornochanchada que ama seu filho Gabriel (Cauã Martins), tem uma relação um pouco conturbada com a ex-mulher Angélica (Tainá Muller) e que cresceu vendo o sucesso de sua mãe, Martha Mendes (Ana Lúcia Torre), como atriz. Augusto Mendes (Vladimir Brichta) – o fictício nome de Arlindo no filme – , um dia vai até uma emissora de televisão para fazer um teste para uma novela, mas lá descobre que está rolando um teste para ser um palhaço apresentador de programa infantil. Ao desistir da novela, Augusto passa no teste e começa a viver todos os dias, ao vivo, o palhaço “Bingo”.

Essa figura icônica, que era personagem de sucesso absoluto nos Estados Unidos, criado pelo norte-americano Peter Olsen (Soren Hellerup), começa a ser produzida em uma emissona brasileira e a ser dirigido pela evangélica Lúcia (Leandra Leal). Ao ver que os roteiros traduzidos não estavam funcionando para o público aqui, Augusto começa a improvisar e a ganhar notoriedade com o programa. Contudo, uma das cláusulas do contrato é que a identidade do ator/apresentador jamais poderia ser revelada. É nessa estrutura que vemos se desenvolver uma história de excessos, controvérsias e de muito impacto dentro da televisão nacional.

Se comparado a outras obras tupiniquins, “Bingo” perde em relação ao seu peso visual/sensual, mas ganha disparado em densidade psicológica, o que o torna muito melhor que o esperado. A trilha selecionada e a original de Beto Villares reforça esse conceito magnificamente. Repleto de ironias e exageros, o texto de Bolognesi traz de maneira primorosa um humor ácido, sexual e controverso, com construções ficcionais para não sofrer com nenhuma barreira judicial. De maneira brilhante, ele consegue fazer com que o desenvolvimento dos personagens secundários torne-se desnecessário e atrai toda a nossa atenção ao reconhecimento do protagonista. E isso, meus caros, é algo muito difícil de se fazer, mesmo que se tenha uma persona tão singular a se apresentar. Não há floreiros em sua narrativa, é o preto no branco, o 8 ou 80, é isso ou não é nada. E isso o tornou diferente de muita coisa que o cinema nacional tem visto nos últimos anos.

Daniel Rezende estreia metendo o pé na porta e sem pedir licença, no melhor sentido da expressão. Sua experiencia na pós-produção deu a ele uma bagagem para saber executar com virtuosidade sua direção. Brincando com a estética da época, vemos uma predominância de planos centralizados, como os da tv, sem perder a fluidez da linguagem cinematografia. Alinhado à pontuada e contrastante direção de fotografia de Lula Carvalho (“Tropa de Elite 1 e 2” – 2007/2010) e à ágil e ritmada montagem de Marcio Hashimoto (“O Filme da Minha Vida” – 2017), a direção de Rezende cresce ainda mais. Esse casamento poligâmico resulta sequências bem feitas, uma ótima narrativa visual e engrandece ainda mais o olhar do diretor sobre a história contada.

Mas com o perdão antecipado, nada disso seria possível sem a impecável direção de arte de Cássio Amarante, os figurinos de Verônica Julian e a maquiagem de Anna Van Steen. De nada adiantariam visões primorosas, se não houvesse um departamento de arte tão preparado e bem aplicado como esse. É verdade que o departamento de arte em filmes nacionais de época tem melhorado muito. Porém, temos aqui uma época de extremo mau gosto, que facilmente poderia soar visualmente artificial na tela, e isso não acontece em momento algum. Área esquecida quase sempre em grande parte das críticas audiovisuais, não adiantaria nada se não houvesse competência à exemplificar a década, a caricatura, da maneira física correta e orgânica.

Em se tratando do elenco, todos estão bem afiados. O pequeno Cauã Martins, que é a cara da Tainá Muller, consegue diluir uma leveza e dramatizar dentro da trama toda a loucura do protagonista. Tainá, por sua vez, faz pequenas passagens e entrega o necessário. Ana Lúcia Torre é um baú de surpresas e ao fazer a “Grande Martha Mendes” não foi diferente. Ela trouxe uma aura matriarcal e uma exuberância para a necessidade de reconhecimento à sua personagem. Leandra Leal é fiel ao que lhe propõe, dando o ar profissional e característico à sua Lúcia, mas de uns tempos para cá, nessa e em outras produções, conhecendo seu trabalho como atriz, estamos ficando com a impressão que ela poderia ter dado mais. A Emanuelle Araújo também faz o que lhe é proposto em sua passagem como a cantora Gretchen, mas, para o bem e/ou para o mal, Gretchen é a Rainha do Rebolado e não é fácil representá-la. Já Augusto Madeira, que vive o cameraman Vasconcelos, tem uma caracterização interessante e debochada, tendo uma das melhores risadas criadas para um personagem que já pudemos ver e ouvir.

No longa, ainda temos a passagem de Domingos Montagner, a quem o filme é dedicado, como um palhaço de circo que ajuda Augusto a construir o seu Bingo. Se a arte imita a vida, de fato Domingos ajudou Vladimir Brichta a estudar a palhaçaria durante a pré-produção. Com longos anos na televisão e algumas passagens pelo cinema, enfim, agradecemos a chance de vê-lo entregue e imerso em um personagem tão grandioso quanto seu talento. É notável a construção de nuances, postura, voz e olhar, tanto para o Augusto quando para “O Rei das Manhãs”. O fato do papel, com a graça do destino, não ter sido do Wagner Moura, fez Vladimir Brichta ganhar o destaque que há anos merecia, nos dando mais do que um show de interpretação, nos dando um banho de talento, naturalismo e desenvoltura.

Com uma pequena perda de ritmo em seu final, “Bingo – O Rei das Manhãs” termina nos deixando inebriados de nostalgia e prazer. Prazer em ver uma pérola em meio ao marasmo das produções do cinema nacional. Um filme que consegue ser pesado sem agredir, expondo a representação de uma figura icônica, com seus erros e acertos mascarados por uma pintura, mas tão humano como todos nós. Sem dúvida alguma é o melhor filme brasileiro do ano e um dos melhores da década. É ou não é amiguinhos?!

Crítica: Bingo - O Rei das Manhãs
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