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Crítica

Crítica: O filme da minha vida

Existe um velho ditado do saber popular que diz que “somos frutos de nossas escolhas”, e nessa visão acabamos por nos tornar aquilo que decidimos ser dia após dia, decisão após decisão, das menores às mais importantes. É bem verdade que em uma visão menos romântica da vida, sabemos que existe um contexto econômico-social que é responsável por quais escolhas podemos desfrutar. No entanto, dentro dessas possibilidades nossas escolhas são sim responsáveis pelo que nos tornamos. Um deslize inconsequente pode mudar para sempre a vida de um indivíduo, uma família, ou mesmo uma comunidade. Sobre o efeito das escolhas no nosso universo (micro mas coletivo) trata o novo trabalho dirigido por Selton Mello. Com olhar pueril “O filme da Minha vida” conta através da história de Tony Terranova a importância dos laços familiares na formação de um ser social.

Marcando mais um passo na carreira de Selton Mello como diretor (que também dirigiu os longas “Feliz Natal” de 2008 e “O palhaço” em 2011), e mais um marco dessa boa fase enquanto ator (depois de “Soundtrack”), este novo trabalho vem sendo considerado (com razão) uma boa aposta para indicação ao Oscar.

O longa baseado no livro “Um pai de Cinema” conta um drama familiar sob a ótica de seu protagonista Tony (Johnny Massaro). Criado em um lar amoroso, filho de um francês com uma brasileira, Tony vive no interior do Rio Grande do Sul, nas Serras Gaúchas da década de 60. Parte então para fazer faculdade na capital, e quando retorna vê seu pai voltar para seu país natal e abandonar a família. Depois de um ano sem notícias, o romântico protagonista – angustiado com a ausência de seu pai e o peso desse vazio em sua casa – vê sua vida estagnada. Professor de francês, no auge de seus 20 e poucos anos, vivencia em meio a um turbilhão de sentimentos que envolvem esta perda, o aflorar do amor.

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Luna (Bruna Linzmeyer) é uma jovem estudante apaixonada por fotografia e por Tony. Aos poucos vê este romance ganhando forma. O envolvimento entre os jovens é contado com gentileza, romantismo e reforça a importância de se ter suporte em momentos delicados. Estes personagens (bem como as atuações por trás deles) são cativantes e despertam uma empatia imediata do público, que passa a dividir a delicadeza de uma história de amor lenta e respeitosa.

Uma característica interessante da narrativa é o perfil de cada um dos (poucos) personagens. Se por um lado se tem Tony e Luna trazendo um colorido bucólico à cena, por outro vemos outros personagens com características e índoles distintas e mais densas. A mãe/mulher abandonada Sofia (Ondina Clais) e seu sofrimento por uma vida solitária – sem entender o motivo da partida de seu grande amor. O pai amoroso Nicolas (Vicent Cassel) que decide abandonar o lar, deixando todo o contexto (visual) mais cinza. O amigo da família Paco (Selton Mello) que leva uma vida medíocre e tem em sua ganância rasa sua própria derrocada. E a bela e triste Petra (Bia Arantes) em sua angústia velada. A interação dos personagens e a forma como a história caminha para aproximá-los em diversos níveis é um dos pontos altos do filme. De maneira simples e delicada todas as pontas se amarram, não deixando muitas dúvidas sobre o futuro dessas famílias.

“O filme da Minha vida” também é muito feliz em retratar os costumes da época. Coisas como o sistema de telefonia, os cinemas, o papel do rádio na rotina das famílias e dos jovens, e (talvez o aspecto mais explorado) a iniciação sexual de rapazes em casas de entretenimento adulto. O que hoje soa estranho, era uma atividade comum nos anos 60 e 70: Jovens por volta dos seus 15 anos tendo suas primeiras relações com garotas de programas, quase que com o consentimento da sociedade, a fim de resguardar as damas “de família”. Esse contraponto com a realidade atual é interessante não só pela naturalidade com que é tratada, mas também para mostrar o quanto se avançou enquanto sociedade frente aos limites de sexualidade diferentes para rapazes e moças (e que sigamos nesse caminho, pois ainda é longo!).

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O longa tem em todo seu decorrer uma abordagem bucólica. E nesse aspecto as direções de fotografia (Walter Carvalho) e arte (Claudio Amaral Peixoto) fazem um trabalho primoroso. Retratando paisagens lindas, associando a luz ao contexto emocional dos personagens e ampliando o envolvimento empático do público com a história.

Em resumo, é um filme no qual toda equipe foi muito feliz. Vale a visita e a indicação para os amigos!

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Geógrafa por formação, bailarina por amor e crespa por paixão, Lorena é uma estudante carioca que passa a vida em busca de soluções capazes de melhorar a qualidade de vida. Como boa taurina: é boa de garfo (e como come!) e amante das artes. Por isso se aventura em danças e circos para deixar a vida mais leve! Tem uma cabeça grande que nunca para de trabalhar e divide aqui na WOO suas loucuras e delícias.

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