Crítica: Black Mirror (4ª Temporada)

Em sua quarta temporada, a criação do britânico Charlie Brooker, “Black Mirror”, não decepcionou, mas seguiu um ritmo diferente do que havia sido apresentado nas outras temporadas – e que, por ter sido comprada pela Netflix, alcançou um sucesso estrondoso internacionalmente. Ainda assim, em seus seis episódios mais felizes que o habitual, a série conseguiu entregar finais satisfatórios e cumprir seu objetivo principal: criticar a tecnologia. Sendo episódios bem diferentes entre si, a trama propôs tentar vencer seu grande inimigo. Argumento que considerando o ritmo da narrativa poderia ter posto tudo a perder. Vale lembrar que o final feliz dos capítulos não agradou muito o público e a mudança de estilo também foi comentada. Um dos pontos cruciais dessa temporada foi que, pela primeira vez, todos os episódios foram protagonizados por mulheres, além de acertar em cheio na questão da representatividade, principalmente por 2017 ter sido o ano das ladies no audiovisual.

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

O episódio de início é “USS Callister”, uma paródia de “Star Trek” muito mais cômica do que sombria. Na trama, o programador Robert Daly (Jesse Plemmons) não recebe o prestígio social que acha que merecia e para se vingar de seus colegas de escritório, ele os clona em um jogo inspirado em seu seriado favorito. A nova funcionária do escritório, Nanette Cole (Cristin Milioti) também ganha sua versão no jogo e resolve pôr um basta na tirania do capitão.

Jesse Plemmons já é um velho conhecido de “Breaking Bad” e “Fargo” e sua dupla interpretação, ora como o sádico Capitão e outra como o solitário programador, é cativante para que o público comece a odiar seu personagem. Ele e Cristin Milloti, a mãe de “How I Met Your Mother”, conseguem se completar mesmo sendo inimigos, já que ambos estão muito bem em cena e conseguem sustentar a trama até o seu final feliz. Não deixando de lado sua característica principal, o episódio agrada por ter um fim positivo e parodiar um clássico, mas foge com outros episódios do estilo da série.

O segundo episódio é “Arkangel”, dirigido pela atriz Jodie Foster, que tem um final ambíguo, mas a produtora faz um bom trabalho contando uma triste história. Na trama, através de um implante na cabeça é possível que pais vigiem seus filhos, e Marie (Rosemarie DeWitt) resolve colocar em sua filha Sara, após ela se perder pelo bairro. Esse implante, que dá nome ao episódio, permite que Marie ache a filha pela localização e veja pelos olhos da menina. Além disso, permite uma espécie de “filtro” para que ela não veja e nem escute situações que possam lhe causar medo. Sara é criada nessa bolha, mas um tempo depois começa a exigir sua liberdade.

O começo do episódio já deixa óbvio que precisaria de uma situação constrangedora para que tudo seja posto a perder. Apesar do óbvio, é muito interessante ver como Rosemarie DeWitt consegue carregar a dependência emocional de sua personagem, que é projetada inteiramente na filha conforme a trama vai se desenrolando. A cada momento da vida da pequena Sara, De Witt cria mais características para Marie, até chegar no estado obsessivo da personagem. Brenna Harding faz Sara aos seus 15 anos, a compondo como uma menina sonhadora que deseja explorar o mundo, e um tanto ingênua. A cena final entre a dupla é reveladora, e o final de ambas as personagens, que possuem uma ótima sintonia em cena, abre margem para várias interpretações.

O terceiro episódio, “Crocodile”, também brinca com implantes de cabeça, mas dessa vez os pensamentos são transmitidos para a máquina de Shazia Akhand (Kiran Sonia Sawar). Há 15 anos a arquiteta Mia Nolan (Andrea Riseborough) e seu namorado cometeram um crime. No presente, Mia testemunha um outro acidente e a vítima recebe uma visita do seguro – onde trabalha a personagem de Kiran  – e com uma máquina consegue repassar as memórias do que aconteceu.

Assim, através das memórias de cada pessoa, os caminhos de Mia e Shazia se cruzam, de uma maneira trágica. O mais interessante do episódio, e é isso que o torna fascinante, é ver a frieza com a qual Andrea Riseborough interpreta sua personagem, e o título que cai perfeitamente bem ao fazer menção às “lágrimas de crocodilo”, expressão popular que significa “falsas lágrimas”. Kiran Sonia Sawar também comove com sua personagem, principalmente quando as duas atrizes afloram em cena seus lados maternos. Ambas as personagens possuem marido e um filho, mas com realidades bem diferentes e enquanto Mia não vê limites, Shanzia mantém mais os pés no chão.

“Hang The DJ” é o quarto episódio da temporada, e apresenta um sistema que promete encontrar o par perfeito para uma pessoa, através de encontros estimados por um determinado tempo, que servirão como “degraus” para o grande amor. Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) se conhecem através do aplicativo e se conectam de cara, mas o tempo limitado de 12h compromete suas expectativas. Após vários relacionamentos, os dois se reencontram pelo aplicativo e decidem não verificar a validade do encontro, mas a curiosidade acaba botando tudo a perder.

A química entre Georgina Campbell e Frank Cole é sentida logo no começo do episódio e todos os minutos essa sensação fica no ar. É inevitável torcer por um final feliz, o que acontece para alívio geral. O episódio, contudo, parece ser o mais superficial e o que menos toca no argumento principal da trama, pois aqui estamos falando mais de amor do que realmente a tecnologia em si. Ainda assim, foi eleito pelo público como o melhor episódio da série.

“Metalhead”, o quinto episódio, já começa diferente por sua estética, toda em preto e branco. Como em um filme antigo, o espectador já é puxado para conhecer a história de Bella (Maxine Peake), que após tentar roubar uma caixa num depósito, começa a ser perseguida por cães robóticos que possuem como único propósito matar.

A atuação de Maxine Peake é o que sustenta a trama, pois o episódio deixa toda a sua história subentendida, e por conta disso acaba recebendo mais críticas do que deveria. A angústia que Bella passa comove o espectador, que mesmo sem entender o porquê daquilo tudo, torce para a vitória da protagonista. O final, que não é feliz, pelo menos retorna ao argumento principal da série, que é a invencibilidade da tecnologia.

O último episódio, “Black Museum”, é o melhor da temporada. Além de reunir diversos elementos de episódios anteriores (leia mais na nossa análise dos episódios), levanta mais uma questão humana do que tecnológica. Na trama, Nish (Letitia Wright) chega ao museu de Rolo Haynes (Douglas Hodge), um cientista com sede de justiça que começa a contar histórias para assustá-la.

Letitia Wright e Douglas Hodge são os pilares do episódio e ficam bem em seus papéis levando o público a se surpreender com o final. Os atores que dão vida aos personagens das subtramas também não decepcionam, mas Daniel Lapaine como o adicto Dawson é quem choca o público (também pela excelente caracterização e maquiagem), com a evolução de sua atuação até o final de sua história. No mais, o episódio cativa pela reflexão apresentada, que sai um pouco da parte tecnológica para mais uma vez voltar a indagar o público sobre seus ideias de justiça, como fez em “White Bear”.

Olhando a temporada sobre um aspecto geral, “Black Mirror” não decepcionou ao apresentar finais felizes e episódios mais sensíveis. Ainda assim, continua a se garantir como um grande sucesso, inovando com seus roteiristas e diretores que cada vez mais apresentam novas “bizarrices” tecnológicas.

“Black Mirror” está disponível na netflix com suas quatro temporadas. 

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