Escrever sobre filmes clássicos consagrados é sempre uma missão difícil. O risco de acabar chovendo no molhado, sem nada acrescentar ao que já é dito é bastante real – fora a responsabilidade de falar sobre a obra de modo a estar à altura dela. Mesmo assim, a própria definição do que faz um filme se tornar clássico já mostra que é importante continuar colocando-o em pautas de discussões e conversas, além de ser homenageado e estar presente no imaginário popular. Clássicos, portanto, são aqueles filmes para os quais estamos todo o tempo voltando, consultando atos que permitem com que eles sejam atemporais.

“Cantando na Chuva” é provavelmente o maior musical de todos os tempos. É praticamente impossível achar alguém que não conheça a icônica cena do personagem na chuva, ou não reconheça as capas de chuva usadas pelos personagens. Isso é possível graças ao que ele nos apresenta e apresentou, no tempo de seu lançamento.

Acompanhamos Don Lockwood, astro do cinema, em sua jornada que envolve seu noivado de fachada com Lina Lamont, em paralelo à descoberta do amor verdadeiro pelo protagonista e dentro do contexto da Hollywood dos anos 20. É um roteiro simples e leve, entretém sem nunca ser bobo ou caricato demais. Não se preocupa em criar tramas rocambolescas ou grandes viradas de narrativa, afinal, estamos falando de um longa que tem a comédia e o musical como principais gêneros. Se boa parte das piadas do filme funcionam, tal qual seu clima descontraído, as músicas apresentadas também cumprem com eficiência seu papel. A maioria delas é apresentada em sequências não muito longas, e quando não acrescentam ao que os personagens sentem ou pensam, não atrapalham.

Por outro lado,“Cantando na Chuva” não pode ser categorizado somente como uma alegre obra dos anos 50. A história é pano de fundo para mostrar a transição do cinema mudo para o cinema falado. Não é exatamente algo corriqueiro hoje em dia, mesmo para quem gosta ou trabalha de cinema e isso por ser um tema muito distante de nossa realidade. Hollywood sempre gostou de falar de si própria, e temos aqui um exemplo perfeito disso. Muitas das situações que naturalmente acabariam ocorrendo nesse contexto viram motivo de piada ou números cantados  usados com muita criatividade. A metalinguagem existe de forma bem original. Nesse sentido, aliás, há uma inventiva cena que retrata um filme dentro de um filme, servindo como metáfora para a grande narrativa que está sendo contada.

A linguagem audiovisual, de forma geral, tende a funcionar em torno do que mencionamos acima. O que faz muito bem. As cores são pulsantes, muito vivas, e são realçadas ainda mais pela iluminação feita. Grande parte disso tem esse resultado por conta do technicolour, efeito usado para colorir na época, e que é significativamente marcante. O figurino dentro desse tema merece atenção ao estabelecer e reforçar esses elementos. Essa sensação de vivacidade que o filme nos passa até pode nos fazer compará-lo a uma peça de teatro, o que naturalmente combina com a direção e o estilo dos números musicais apresentados. Há uma fluidez que casa esteticamente muito bem com outros aspectos visuais presentes, que se mostra na movimentação dos personagens nas cenas, seja em coreografia ou mesmo em diálogos.

É claro que a direção acaba por comandar esses fatores, provocando sua união e a coesão que vemos em tela. Uma decisão que se encaixa bem nas referências metalinguísticas são as cenas dentro de salas de cinema em momentos de exibição de filmes. Ao invés de filmar a platéia ou sua reação, somos colocados também para assistir aquilo que passa na tela de cinema, como se fôssemos espectadores. Esse tipo de jogada fortalece o tema por trás da sinopse de “Cantando na Chuva”, que é o cinema se referenciado através de décadas passadas.

Assim, temos um clássico absoluto que é e continua sendo ecoado por gerações. Não é de se estranhar que aclamados filmes contemporâneos como “La La Land” bebam diretamente em sua fonte, e ele possa se manter atual na medida do possível. Encanta gerações com sua leveza e primor no que faz e se propõe a fazer.


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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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