Crítica: Comeback

“Comeback” vem como um grande faroeste brasileiro para algumas salas de cinema desde 25 de março. Feita pela O2, como muitos outros filmes, não teve sua circulação grande, mas houve bastante movimento na internet em torno dele.

Foi dirigido e roteirizado por Erico Rasse, que nunca foi diretor, mas mostrou conhecer bastante da área, apesar de algumas limitações que, no entanto, não atrapalham o filme. E é protagonizado por Nelson Xavier (“Chico Xavier”, 2010) aos seus 75 anos de maneira nada menos que excelente. Há ressalvas apenas na gravação das vozes para a edição. Não conseguiram ser tão felizes com a captação e o tratamento. O elenco também conta com Wellington AbreuJoão Antônio.

“Comeback” conta a história de Amador (Nelson Xavier), um ex-pistoleiro que teve seus tempos de glória nos jornais, recordando-os então apenas em seu álbum de notícias. Mas agora depois de algumas humilhações que anda sofrendo, resolve retornar de sua aposentadoria.

O que aprofunda o personagem Amador são suas tantas frentes de batalha. Por um lado, não aguenta mais sobreviver sob tanta humilhação e impotência quando em sua época ele era um dos melhores no gatilho. Por outro, luta contra a própria velhice e o tempo. Seu álbum, introduzido logo no início, mostra sua nostalgia pelo passado e por sua fama, mas principalmente pelo poder que possuía antes e saber que não mais o possui fragiliza-o. Fato que não durará por muito tempo.

A fotografia do filme é muito oportuna. Todo o ambiente é pobre, mas algumas luzes dão a atmosfera suficiente e também iluminam, quando não apenas criam uma silhueta sombria. Muito se joga de alguma maneira com onde os atores se posicionam, que parece não ter sido tão regrado. As partes mais sombrias têm verdes e amarelos muito interessantes para a cena, mostrando a pesquisa de cores, mas também seu jogo com a iluminação de rua muitas vezes usada.

O figurino é muito plausível para a região, principalmente para Amador, pois mostra tanto sua pobreza quanto seu estilo na vida social com os tons terrosos de todos os personagens. Poderia-se dar ressalvas apenas aos personagens mais ricos talvez e suas vestimentas.

Há todo um conflito com o passado na vida dos personagens. Todos o imaginam de um forma diferente e constroem seus universos a partir daí. Armando não troca sua pistola, assim como com outras coisas. Existe todo um apego com o passado e de certa forma estão aprisionados a ele e retornar como uma forma de destino do anti-herói.

A sonoplastia é muito boa com algumas músicas em espanhol inclusive. No entanto, o paralelo não é tão claro, ainda que o tempo e as batidas tenham sido muito bem colocados com as imagens. Ambientam a cidade em que Armando vive e também seu tempo.

Quanto ao fim, talvez pudesse ter algo diferente. De alguma maneira não satisfez tanto quanto tudo indicava, apesar de que também se indicava o que foi feito, mas creio que faltou mais linhas que concretizassem-no como algo mais sólido.

Por fim, o filme não carrega muita ação. Antes, explora os mundos ali apresentados, mas é oportuno quando as armas têm de entrar em ação. Pode-se dizer que entraria mais em algo asiático do que no americano. Ainda que seja um faroeste até certa medida, vale lembrar que esse próprio gênero veio na realidade dos samurais dos filmes japoneses. De qualquer maneira, não temos um Clint Eastwood, mas a representação da idade, do poder, da humilhação e da vingança são muito bem feitas e ainda mostram a cara do Brasil, principalmente em questões políticas e midiáticas ou em como o passado pode ser modificado.

Por Paulo Abe

Crítica: Comeback
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