12 de dezembro de 2019
muito além do  nonsense

Repleto de metáforas forçadas sobre a vida e as dificuldades que essa abraça, “Como é cruel viver assim” é uma divertida, porém malfadada tentativa de criar uma trama inteligente e cult. Com uma história que beira o nonsense sem nenhum medo, nos levando no início a lembrar dos caminhos traçados com sucesso por Mario Bortolotto e os mestres Plínio Marcos e Nelson Rodrigues, o filme tropeça em suas próprias ideias, indo do cativante ao caricato entre um ato e outro.

Baseado na peça escrita por Fernando Ceylão, o enredo nos mostra as adversidades vividas por quatro pessoas bem diferentes – mas com algumas ideias em comum – sedentas por uma notoriedade cada vez mais distante de suas vidas. Em meio as complicações e dificuldades da classe média suburbana, a proposta de um inusitado sequestro torna-se a saída para todos os problemas.

Produzido pela ótima Mariza Leão, responsável por obras como “Meu nome não é Johnny” e “De Pernas para o Ar”, o filme é quase um teatro nas telas. Com uma produção simplista, porém muito bem realizada, o longa tenta fugir do estilo convencional que vem marcando o mercado brasileiro e acerta bastante nesse quesito.

Contudo o deslocado roteiro do próprio Ceylão (“Sorria que você está sendo filmado” e “É Fada”) se esbarra em erros totalmente dispensáveis, que causam na história um vendaval de exageros absurdos coberto por esteriótipos ridículos que defrontam o constrangimento. Com sérios problemas de construção de personagens – sejam esses os principais ou até mesmo os coadjuvantes e pequenas participações – e uma infeliz estrutura dramática, o roteiro até tenta sobressair com um ou outro diálogo interessante, bem como sacadas que dariam certo se fossem melhor aproveitadas (como é o caso das sequências contadas em paralelo uma da outra), mas fica perdido em meio a um presunçoso contexto que nos afasta ocqsionqlmente.

Ao contrario de muitos problemas existentes no filme, temos a inquietante direção de Julia Rezende para nos segurar na cadeira até o final. A diretora, conhecida pelas comédias “Meu passado me condena 1 e 2” e “Ponte Aérea”, transita muito bem entre os gêneros que se aglomeram durante a projeção e nos surpreende ao optar por um seguimento mais visceral, do qual abusa conscientemente de uma câmera nervosa que nos aproxima constantemente das personagens.

Dante Belluti é o responsável por criar uma fotografia mais quente, bastante saturada, que denuncia uma atmosfera real e o sufoco da vida comum. Com uma textura mais densa, quase que granulada, e um fantástico trabalho de movimentos de câmera e desfoque gradual, Belluti propõe uma tensão escondida por trás de um humor ilógico, tragicômico.

Com um elenco de primeira linha, ostentado por notáveis e empenhados atores, temos outro ponto positivo para a produção. Mesmo com problemas na estrutura de seus personagens – esses desde o roteiro – Os atores acabam fazendo bonito na maior parte de suas cenas em tela. Marcelo Valle, que já havia feito a peça nos teatro, desponta com ótimos trejeitos que fornecem um ar de “perdidão” (ou não muito inteligente) ao seu personagem. Já Sílvio Guindane, que vem se destacando bastante em seus últimos trabalhos, enlaça diferentes gestos psicológicos que enriquecem sua atuação. Entretanto, no decorrer da projeção, o ator se perde em alguns momentos e esquece de usá-los em pontos importantes. Fabíula Nascimento e Debora Lamm são os grandes destaques do casting nos oferecendo belíssimas construções de personas totalmente opostas. A primeira, contida, com seus olhares arregalados e características de um pessoa esforçada – porém com o semblante triste – nos arrebata desde o início. Já Lamm explora seus conflitos de forma aberta, escancarada. A atriz aprofunda seu papel com detalhes certeiros – que vão das manias ao grotesco jeito de falar.

O filme também traz bons nomes para o time de coadjuvantes. Paulo Miklos é o que mais se destaca e, de forma caricata demais, acaba não convencendo em suas cenas. Otávio Augusto tenta trazer um certo carisma para a figura do mítico “Velho” (inclusive, ganhando momentos que referenciam o inesquecível Don Corleone de Marlon Brando). Augusto acerta em boa parte, mas acaba perdendo o ritmo fortuitamente. Enquanto isso, Milhen Cortaz não diz muito para o que veio. Sua interpretação é repetitiva (nos levando a enxergar outros personagens que já deu vida) e soa forçada em diversos trechos.

Com uma bem desenvolvida direção de arte e um figurino verossínel, estabelecendo sem exageros a classe social das devidas personagens, a obra se destaca mais por sua técnica que traz ainda um razoável trabalho de maquiagem e uma boa trilha que dialoga muito bem com a edição.

No geral “Como é cruel viver assim” não é uma produção ruim, mas está longe de ser um filme para prêmios. Contudo, é um longa que pode agradar mais o público do que distanciá-lo. Só o simples fato de tentar criar algo  diferente daquilo que estamos vendo demasiadamente no mercado brasileiro, já faz a obra ser merecedora de atenção.

* Filme assistido durante o Festival do Rio 2017. O longa ainda não possui data de estreia.

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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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