A peça se refere ao texto real de 1967, quando Ron Jones, professor da Califórnia sugeriu um projeto escolar inusitado aos alunos do ensino médio. Para comentar o tema autocracia, fundaram um regime totalitário dentro da turma no período de uma semana. Sua finalidade, era então, apresentar ao grupo de estudantes como surge e funciona um regime fascista e a possibilidade deste imergir em meio a um processo de descontentamento sociopolítico como o que o mundo passa atualmente, por exemplo.

Ainda como complemento do roteiro, o filme alemão A Onda, sob a direção de Dennis Gansel, também soma referências. Nesta montagem adaptada, o jovem dramaturgo e diretor, mas não menos experiente, Jarbas de Albuquerque obedece a versão original e se lança como um criador de problemas ao questionar no interior da narrativa as propostas plantadas por perguntas de cunho político, sobre nosso papel enquanto cidadãos e as ressonâncias e ecos de nossas ações.

A criação colaborativa evidente, sinaliza a troca generosa entre os atores e atrizes: Adriana Perin, Daniel Bouzas, Henrique Guimarães, Lu Lopes, Maíra Kestenberg, Samuel Vieira e Ignácio Aldunate; alunos e professor moldaram cada personagem sendo capazes de alcançar relevo durante o espaço-tempo da peça para inserir seus highlithts, cabendo até improvisos. Assisti Depois da Terceira Onda no dia seguinte a eleição norte-americana, na qual um misógino e racista chegou a presidência de uma das nações mais poderosas do mundo. Os calafrios são fortes e o elenco, não deixou de se posicionar contra isso.depois da terceira ondaA cena se mantém a maior parte do espetáculo com quase todo o elenco alternando conversas densas entre professor e alunos. Ora o professor ganha destaque, ora, os alunos vivenciam momentos que se localizam nas frases de impacto midiático. Sem dúvida, um texto que nos exige levantar alguma bandeira. A intenção do diretor e atores de propor micropolíticas cotidianas ao público parece eficaz. Difícil encontrar alguém que saia da peça sem a preocupação de se mobilizar por alguma mudança. Seja ela de qual natureza for.

O espaço cênico minimalista de Gregório Rosenbusch e Mariana Meneguetti, onde os próprios atores trocam a mobília simples de lugar funciona bem com a iluminação de Elisa Tandeta setoriza os intervalos de fala e dá pistas sobre o direcionamento da peça. Federico Puppi encarregado da trilha sonora, resolve com o instrumental enérgico. O figurino urbano e simples de Henrique Guimarães dá conta dos universitários e do professor.

Depois da Terceira Onda vale ser vista porque comenta o cenário político atualíssimo para além dos limites territoriais. Poderia ser encenada aqui no Rio de Janeiro, na capital de São Paulo, em Brasília, qualquer estado dos Estados Unidos e em muitos países da Europa que clamam por um levante em favor dos direitos sociais. A responsabilidade é de todos nós.

Por Michaela Blanc


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