Crítica: Dor e Glória

“Dor e Glória”, novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, começa com o protagonista Salvador Mallo (Antonio Banderas) submerso em uma piscina, completamente parado. Ao fechar os olhos, a personagem se transporta para o passado, para o rio onde sua mãe (Penélope Cruz), junto com outras mulheres do vilarejo, lavam roupa enquanto cantam e conversam. Essa transição de um estado de inércia completa a uma situação de confluência de movimentos (fluviais, braçais, vocais) é uma introdução eficaz às estratégias utilizadas por Almodóvar na sua mais recente película.

A água é uma imagem recorrente em “Dor e Glória”, utilizada de forma a diferenciar Salvador das outras personagens do filme. Um cineasta em crise criativa, sofrendo de intensas dores físicas e psicológicas, Salvador (uma espécie de alter ego de Almodóvar) não escreve mais, mal sai de casa e não se esforça nem para comer. Em suma, ele é água parada: uma piscina. À sua volta, porém, seja no presente ou no passado, a água se move.

Ao se reencontrar com Alberto (Asier Etxeandia), ator principal de um antigo filme seu com quem tem uma relação conturbada, Salvador experimenta heroína, que ao ser aquecida escorre pelo papel alumínio; ao se reconhecer em um texto escrito pelo protagonista, Federico (Leonardo Sbaraglia), um amor do passado, verte lágrimas pelo rosto; ao se referir ao cinema em que ia quando criança, Salvador afirma que ele “cheirava a urina”, água que jorra e fede. Tal fluidez também se encontra na própria estrutura narrativa do filme, episódica (com personagens entrando e saindo) e que vai e volta no tempo constantemente.

O movimento também rege a questão da casa, um dos elementos-chave de “Dor e Glória”. Em determinado momento do filme, Federico compara o apartamento de Salvador a um museu, um lugar marcado pela valorização do passado e pelas estritas normas de conduta. A moradia do protagonista o aprisiona e o obriga a encarar constantemente seus tempos áureos, chamando atenção para seu presente decadente.

Em contrapartida, sua casa de infância, a priori uma caverna escura e fria, à medida do tempo recebe vasos de flores, azulejos na parede e fitas coloridas na porta. À ela, Almodóvar compara a sala de cinema (a “casa” escolhida por Salvador), a princípio também apenas uma sala escura com uma tela branca, mas que os filmes preenchem de vida e movimento a 24 quadros por segundo. Dessa forma, o diretor espanhol corrobora a importância de movimento, de propósito, de “ter o que fazer” como estratégia para superar a dor.

A partir de sua relação com as demais personagens, percebe-se que Salvador, ironicamente, precisa ser salvo. Em seus tempos de glória, ele tentou salvar seu filme da atuação insatisfatória de Alberto, salvar Federico do vício, salvar sua mãe (Julieta Serrano) da morte e, ainda criança, chegou a salvar o pedreiro Eduardo (César Vicente) do analfabetismo. Agora, porém, é ele quem deve deixar os outros tentarem salvá-lo, seja montando uma peça de sua autoria, dando um ponto final em um relacionamento mal-resolvido ou presenteando-o com a inspiração para um novo projeto.

Com um subtexto rico de possibilidades interpretativas, “Dor e Glória” é um presente para os fãs de Almodóvar. Sendo um filme de memórias, o 8 ½ do autor espanhol (comparação feita pelo próprio ao exibir no fundo de uma das cenas o pôster do clássico de Federico Fellini), há uma abundância de referências às suas biografia e carreira, constituindo um passatempo aos admiradores de longa data.

Entretanto, “Dor e Glória” é também um de seus filmes mais contidos. Os usuais elementos do cinema de gênero e as marcas do camp, como as tramas rocambolescas e as personagens de personalidade forte, aparecem de forma muito mais sutil do que o normal. Até mesmo fãs de obras mais “sérias” do diretor, como “Fale com Ela” e “Abraços Partidos”, provavelmente irão se surpreender com tamanha sobriedade. Infelizmente, essa falta de um “almodovarismo” mais forte impede que o filme tenha o mesmo impacto e vivacidade de seus melhores trabalhos.

No todo, é um grande avanço em relação a “Os Amantes Passageiros” e “Julieta”, seus dois decepcionantes longas anteriores. Além disso, o desempenho sólido do elenco (em especial o belo trabalho de Banderas, laureado em Cannes) e a competência técnica típica dos filmes de Almodóvar (destaque para a ótima trilha sonora de Alberto Iglesias) garantem uma experiência minimamente satisfatória até para espectadores pouco familiarizados com o diretor. Porém, sem dúvidas, o resultado é mais gratificante para os iniciados.


Imagens e Vídeo: Divulgação/UniversalPictures

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