Crítica: Dunkirk

Os fatos históricos são os que mais nos atraem em filmes de guerra, mas sabemos que muitos vão assisti-los pelo potencial espetaculoso que eles proporcionam. Temos, a partir do “O Resgaste do Soldado Ryan” a elevação técnica desse tipo de filme. Spielberg traz as vísceras para a tela em sua famosa sequência do desembarque em Normandia.

Claro que clássicos como “Apocalypse Now” e “Platoon” são grandes histórias contatadas durante esses conflitos, no entanto, com novos instrumentos, o cinema pôde extrapolar a imaginação dos realizadores e da plateia. Por isso, quando foi noticiado que Christopher Nolan iria não só dirigir, mas também, escrever a história da evacuação inglesa na praia de Dunkirk durante a segunda guerra mundial e que tudo seria filmado em IMAX, todo mundo que gosta minimamente de cinema ficou com os pelos do corpo arrepiados.

Nolan tem em seu currículo filmes que dividem a crítica mas que agradam muito o público em geral. Sua capacidade em criar cenas grandiosas mas que possuem significados narrativos é de fato uma de suas qualidades. As histórias aventurescas apoiadas na fantasia e na ficção cientifica transformam o cineasta britânico quase em um novo Spielberg. O “quase” é porque Nolan não consegue alcançar a potência emocional dos filmes de Spielberg. Seus personagens, quando não interpretados por atores competentes, tendem a cair na caricatura, tornando-se unidimensionais. Até o momento é justo quando lhe “acusam” de não ser um bom diretor de atores. Sua técnica se sobressai à dramaturgia, o que pode atrapalhar o desenrolar de algumas histórias. Seus filmes anteriores são ótimos por serem cinema de espetáculo e que possuem interpretes que conseguem entregar muito mais do que o exigido pelo diretor.

Infelizmente para Nolan, “Dunkirk” é um tipo de filme que necessita muito de atuações convincentes e de situações que façam a tensão crescer a ponto da sobrevivência daqueles personagens ficarem em risco. Não que a tensão não esteja lá, mas é minimizada por causa de uma narrativa prejudicada por uma montagem confusa. O editor Lee Smith foi incumbido de juntar os vários núcleos de personagens em terra, no mar e no ar e tornar claro os pulos temporais durante o longa; o que não faz com sucesso.

Durante longos momentos ficamos confusos em relação à sequência de acontecimentos, já que não há uma referência que faça com que o espectador entenda que um personagem foi do ponto A para o ponto B ou mesmo que uma cena complementa a outra no futuro ou no passado. Tudo parece ser picotado e jogado na tela, chegando ao ponto de fazer com que um único corte separe uma batalha de dia e outra de noite, o que é irreal, já que se passam na mesma região. Apenas depois de alguns momentos, onde alguns personagens aparecem em lugares diferentes ao mesmo tempo, é possível entender a intenção do diretor em relação à construção da história.

Essa falta de conexão da montagem atrapalha a relação dos personagens com o público, pois é impossível, em frações de tempo durante a trama, que eles sejam aprofundados a ponto de fazer com que nos importemos com seus destinos. Os personagens vagam em praias cheias de corpos, se afogam em navios afundando ou caem com seus aviões, o que passa insipidamente diante de nossos olhos. A falta de humanidade nesse caso não parte da plateia mas sim do roteiro.

Uma virtude de Nolan e que está presente em todos os seus outros filmes é seu total controle da cinematografia. Junto com o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema ele cria um clima extremante opressor mesmo em um ambiente aberto como a extensa praia. Em vários momentos Nolan e Hoytema enquadram os soldados agrupados em uma espécie de píer aguardando o resgate, transformando-os em um rebanho aguardando o abate. O que se torna realidade nos frequentes bombardeios alemães.

Um curto, mas genial plano holandês mostra a falta de horizonte dos soldados sentados na areia, o que é reforçado pelas cores sem vida das roupas e mesmo da espuma quase alienígena que se acumula onde as ondas se quebram. Outra ótima sacada da direção são as batalhas aéreas filmadas em “primeira pessoa”, só mostrando a mira do avião perseguindo o seu alvo. Por esse ponto de vista não fica difícil perceber o quão trabalhoso era atingir qualquer coisa com os aviões Spitfire da aeronáutica britânica.

Outra estrela que ajuda Nolan em sua jornada é Hans Zimmer. Quase todo o filme é permeado pela música épica do experiente compositor, o que contribui para toda a tensão vista em tela. A ameaça é incessante, assim como os acordes que explodem as caixas de som do cinema e tremem a sala de exibição. A presença da trilha só é encerrada no final da película, sobrando apenas o silêncio de uma nação provisoriamente derrotada, já que sabemos como a guerra terminou. Nolan não acerta totalmente em “Dunkirk”, mas entrega um filme que possui atributos impossíveis de ignorar, o que o tornará em sucesso de bilheteria e, quem sabe, convença a maior parte dos críticos.

Crítica: Dunkirk
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