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Crítica

Crítica: Eu não sou seu negro

Imagem: Divulgação/Imovision

“Branco é a metáfora de poder”. “Eu não sou seu negro” procura mostrar essa mensagem. Sua balança pende por vezes na representatividade do negro na sociedade, de sua luta, das injustiças que sofre, mas uma segunda pele permeia todo o filme com esse tom. Isto é, de que no fundo se está falando do branco. E é preciso falar sobre o branco.

A direção do filme é de Raoul Peck que se utiliza de um escrito não terminado de James Baldwin e da voz de Samuel L. Jackson. O documentário tem um tom pessoal, é o ponto de vista de James Baldwin sobre os esforços da comunidade negra nos Estados Unidos nos anos 50 e 60 e seu retorno para integrar essa empresa.

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Muitas imagens chocam logo no início com a famosa menina de 15 anos negra a entrar em uma escola com apenas alunos brancos a ser cuspida, ridicularizada e recebida com os mais desumanos protestos. Outra imagem morte são nazistas a levantar a suástica nas ruas apenas dez anos depois da derrota de Hitler.

O filme mostra parte da trajetória de Malcom X, Martin Luther King e Medgar Evers. Ambos pregavam abordagens bem distintas para a inserção no negro na sociedade, mas eram um mesmo impulso nessa direção. No entanto, ainda que ignorados por céticos do problema racial ou da violência com base apenas na cor, James Baldwin mostra como, um a um, os 3 Ms foram sendo assassinados: Medgar em 63; Malcom em 65; Martin em 68.

As imagens de um Estados Unidos racista falam mais alto que qualquer palavra escrita. As expressões de uma multidão racista é nauseante. Por breves momentos, Raoul Peck faz paralelos com a própria violência policial contra negros que tomou as redes sociais ano passado e retrasado, mas perde uma grande oportunidade em mostrar a continuação da resistência de Medgar, Malcom e Martin no movimento Black Lives Matter. Uma escolha no mínimo política também. Nenhuma citação.

No entanto, voltando ao primeiro parágrafo, o que Baldwin sutilmente – talvez nem tanto – parece nos dizer é sobre a fraqueza do homem branco. Em outras palavras, em como, apoiado na herança histórica de poder, apenas se apequena, emburrece e desumaniza nas condições de existir para oprimir. A frase: “o homem branco é a metáfora para o poder” é, no fundo, errônea. Se tomarmos Hannah Arendt, escritora de livros como: “A condição humana”, “Sobre a violência” e “As origens do totalitarismo”, apenas uma conclusão pode ser feita. Sua equação é simples. Um homem, um grupo ou uma sociedade só pode ter poder, exercer poder, se há autoridade. Mas no mundo de hoje, não há espaço para a autoridade racista, de modo que, uma vez perdido o poder, resta apenas a violência, seu último recurso para fazer sua vontade. E justamente esta violência é a garantia de sua fraqueza.

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Por Paulo Abe

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