Crítica: Eu Só Posso Imaginar

Poucas coisas mexem conosco como a música. Basta mencionar canções que nos transportem imediatamente para momentos em que as ouvimos, ou pessoas as quais elas nos remetem, e isso é um poder absurdo desse tipo de arte.“Eu Só Posso Imaginar” fala sobre isso, de forma bastante específica, inclusive. Baseado na história real de Bart Millard, a temática da música é explorada pelo viés de quem a cria, do compositor. É evidente que quem apenas a consome e quem a gera vão ter relações e experiência distintas sobre o mesmo objeto. Essa é uma das belezas da arte, e ver esse foco de “Eu Só Posso Imaginar” é uma decisão acertada, ainda que não seja uma obra com qualidade primorosa, longe disso.

Como uma espécie de cine-biografia, não tem como negar que exageros são frequentes e algumas sequências chegam a ser apelativas. Se por um lado a infância de Bart e sua antiga relação com a música, bem como seus sonhos e fantasias é amável, por outro lado, a trilha sonora e uma série de diálogos não tem como não soar brega. Parece que o longa quer arrancar lágrimas do espectador e o fato de ser um filme com um sub-texto cristão talvez aumente isso. Não que o personagem ser um cantor de música religiosa seja um problema em si, porque não há nada de errado com isso, mas a forma com a qual isso se insere na obra acaba por prejudicá-la. É mais um ponto fraco que se soma a outros problemas como uma bola de neve. De toda forma, seria mentiroso dizer que “Eu Só Posso Imaginar” não comove e toca em assuntos importantes. A questão do pai abusivo está aqui, por exemplo, e presente em todo o desenrolar.

Aspectos a serem elogiados são a direção e a fotografia, que mostram senso estético apurado dos realizadores. Vários enquadramentos e longas sequências que são colocadas criam uma beleza e uma poesia visual muito grande ao que vemos, talvez na intenção de afirmar a grandeza do tema da superação que aqui se faz tão presente. As cores, somadas a isso, trazem uma paleta que remete a nostalgia e sentimentos positivos quando opta por tons quentes para mostrar o passado do protagonista. Sua infância, mesmo com problemas, está repleta de memórias positivas. Isso é um padrão que se repete por toda trajetória dele que nos é mostrada. A forma com a qual ele começa a se inserir no meio musical e que surge como algo um tanto quanto inesperado é um exemplo disso. Pode ser uma cena de pequena escala, mas é filmada com muito bom gosto.

“Eu Só Posso Imaginar” é, então, uma história poderosa. Apesar dos inegáveis problemas que carrega, discute assuntos relevantes e traz um apelo visual bem bonito também. Ainda que não seja a melhor cine-biografia do cinema, funciona bem ao que se propõe e funcionará possivelmente melhor para tipos específicos de público. O mais importante do longa é apresentado logo na cena inicial, que é o fato de Bart Millard ter, na realidade, escrito sua canção mais famosa ao longo de toda sua vida, ao invés de apenas em dez minutos como ele mesmo afirma. É uma premissa que, mesmo básica e repleta de uma série de pedras no caminho da projeção, consegue se firmar com eficiência.

Crítica: Eu Só Posso Imaginar
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