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Crítica: Fruits Basket (2019)

Com o recente encerramento da última temporada da nova adaptação de “Fruits Basket”, o clássico do fim dos anos 90 finalmente teve justiça em uma série animada dividida em três partes, tendo a última sido lançada na Primavera 2021. Um romance dos mais tradicionais que se divide entre tropos triviais e um lugar de aconchego e retorno, mas que se perde em alguns momentos em sua proposta de convencer os mais céticos. A animação está disponível nas plataformas Funimation e Crunchyroll. Essa última, gratuita, porém, com anúncios.

Imagem: Divulgação/Crunchyroll

Valeria fazer um breve comentário de antemão: Dados sobre vendagem costumam ser obscuros, desatualizados e a não considerar traduções para o mercado internacional ou vendas digitais. Dito isso, shoujo sempre foi, na sua excelência, uma demografia nichada. Para o ocidente, levantada a pergunta “qual é o maior mangá shoujo de todos os tempos?”, sem demora uma resposta parecida com Sailor Moon — a pontuar em sexto dos mais vendidos do gênero — e Cardcaptor Sakura — fora do top 10 — deve ressoar.

Onde é que se chega com isso? Bem, falar de Fruits Basket quase quinze anos após o término de sua publicação é também relembrar a história do shoujo e como atravessou gerações de fãs. Ao se tratar do público alvo, suscita-se um velho fantasma, que dita que shounen é o gênero da lutinha e shoujo o das garotas mágicas e anime de romance. Dadas as ressalvas que devem ser feitas, Fruits Basket tem um pouco de culpa no cartório. Afinal, é ele um dos mais relevantes porta vozes desse “movimento”, certo?

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Errado.

A premissa de Furuba (nome carinhoso dado pela comunidade) é relativamente simples: Honda Tooru, agora morando com os Souma, irá conhecer pouco a pouco os treze membros enfeitiçados pela maldição do zodíaco, ao passo que no início o espectador pode ter até a impressão de se ver em uma fórmula de “personagem do dia”, conhecendo aos poucos os integrantes do clã e suas personalidades únicas. Com as cartas já na mesa, é então hora de ver como cada uma dessas linhas de narrativa que foram apresentadas se cruzam.

Embora não seja difícil tomar de primeira impressão o romance como fim e grande propulsor da trama, soa redutível atribuir essa ideia tanto a Fruits Basket como também ao shoujo, como se todas as narrativas da demografia estivessem fadadas a um determinismo, até mais impregnado no imaginário popular que quanto aos anime shounen. Furuba aqui parece então ser muito mais sobre amadurecimento e pertencimento do que um romance.

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As expressões viscerais das personagens, com inúmeras pausas para respirar e contemplar meio a tensão, são fruto de um percurso narrativo optado pela autora aqui: com indivíduos que refletem constantemente sobre si mesmos e personalidades até mesmo caricatas, o telespectador pode se identificar mais facilmente com os temas universais retratados, como luto, rejeição parental, desilusão, culpa, violência doméstica, etc. Não há nenhum demérito nisso, na verdade, isso só é mais visível por se tratar de um drama de cotidiano; outras obras famosas, podendo se citar Death Note, parecem sofrer com isso na hora de adaptar personagens como Misa Amane (uma típica “Manic Pixie Dream Girl”, por exemplo).

Entre os aficionados por drama de cotidiano essa pareceria a perfeita pedida, porém, mesmo para os mais emotivos, Furuba pode ser uma tarefa difícil e pouco eventualmente convincente; não são poucas as vezes que os personagens se entregam a sentimentos de custosa compreensão, isto é: Tooru Honda virando os personagens do avesso e os transformando através de sua gentileza sobre-humana. Essa não é mais uma ressalva de “este não é um anime para todos”, até porque nenhuma produção irá agradar gregos e troianos, mas porque dentre os seus iguais no gênero, é o contraponto que oferece uma leveza tão pueril para Fruits Basket.

A primeira versão do anime foi lançada em 2001, quando o mangá ainda estava em publicação, não adaptando toda a história. Fruits Basket 2019, é bem mais competente que seu antecessor não apenas em traduzir com fidelidade a experiência do material original como também na direção artística de se invejar: um dos pontos mais fortes do novo Furuba, afinal, é que os visuais enchem os olhos, desde personagens expressivos até paisagens deslumbrantes. A trilha sonora que acompanha não fica nada para trás, com meu destaque para a segunda abertura, “Home”, por Asako Toki, sintetizando o sentimento melancólico, porém esperançoso, do anime, um prelúdio e também uma profecia autorrealizável.

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“Para onde você quer voltar?”
Mas para onde devo voltar?
Eu estava sozinha, sem saber o que fazer, perdida
Até te encontrar

Você é meu lar, doce lar

Brilhante —

— Cidade panorâmica

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Em qualquer noite, mesmo separados

Você é o lar para onde meu coração retornaAsako Toki, “Home”, quarta abertura da série. Tradução própria.

Em retrospecto, Fruits Basket é uma habilidosa adaptação que traz o sabor do drama shoujo típico do final dos anos 90 para o presente, e que nos mostra que o gênero está mais vivo do que nunca. É adorável, heart-warming, comovente. Deve ser deixado como aviso que não é, todavia, um anime dos mais palatáveis para quem lida na pele com questões de saúde mental. Caso você se sinta desconfortável, priorize-se e proceda com cautela.

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Espero que tenham gostado, pessoal! Compartilhem nos comentários suas experiências com Fruits Basket — sem spoilers, por favor! — e sua história com o shoujo.

Abertura: Fruits Basket 2nd Season — Vídeo: Divulgação/Asako Toki

Crítica: Fruits Basket (2019)
Sinopse
Após a morte de sua mãe, a gentil estudante Honda Tooru se vê tendo que morar com seu avô, que pergunta se a neta não poderia passar uns tempos com uma amiga até a conclusão de uma reforma na residência. A garota começa a viver em uma tenda ao ar livre, no desejo de não incomodar ninguém, até um dia ser resgatada e convidada a morar com os Souma, uma família que sofre com uma maldição: treze membros se transformam em animais do zodíaco chinês ao abraçarem pessoas do sexo oposto, o que inclui seus dois colegas de classe, o impulsivo Kyou, o gato, e o sereno “príncipe” Yuki, o rato.
Prós
Animação e trilha sonora deslumbrantes;
Confortável e retrata com responsabilidade assuntos delicados;
Sabor do shoujo e drama clássicos revisitados.
Contras
Desenvolvimento de personagem sobrehumano: Tooru como um Deus ex machina emocional;
Pode ser conteúdo sensível a quem lida com problemas da saúde mental
3.9
Nota
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Linguista em formação e PhD em shoujo de baixa qualidade. Obcecado por cultura pop e leituras clichê; ainda por descobrir que talvez Kakegurui não seja um traço de personalidade.

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