Contemplação e Aceitação

O cinema britânico tem a capacidade de nos convencer de suas narrativas, mesmo que ela seja pautada somente nas ações e/ou imagens. O não falar ou o expressar pelo corpo é uma forte característica da formação dramática dos filmes ingleses. Pelo menos as produções independentes que temos acompanhando ao longo dos anos. Por vezes ele pactua para uma execução brilhante, em outras torna a obra cansativa desnecessariamente. Unindo ambos os casos, pode parecer difícil, mas é possível, temos o longa “God’s Own Country”, que em tradução livre seria “País de Deus”.

O longa nos apresenta Johnny Saxby (Josh O’Connor), um homem na casa dos 25, que mora com sua avó, Deidre (Gemma Jones), e seu pai, Martin (Ian Hart), em uma enorme fazenda em Bradford. Pela debilitação de seu pai, ele precisa cuidar de todos os afazeres na fazenda, dos cuidados aos animais à limpeza e construções. Dada a responsabilidade e a situação em que vive, podemos reconhecer a infelicidade que ele tem em viver, bebendo em exagero, reclamando da vida e transando com outros homens apenas para saciar sua vontade carnal. Porém, com a chegada de Gheorghe Ionescu (Alec Secareanu), um romeno que o ajudará durante um tempo na ordenha de ovelhas, Johnny começa a se reconhecer de outra maneira. Ora ameaçado, ora interessado, mas sempre de maneira intensa.

Em sua estreia, o longa escrito e dirigido por Francis Lee consegue ser um mix de coisas, desde a base LGBTQs à um drama sobre autoconhecimento. Porém, ele resolveu pular o clichê de “descoberta” sexual. Seu ponto de partida é um assunto importante e pertinente, a conduta heteronormativa e a necessidade de não demonstrar afeto. Embora o protagonista não use aplicativos de encontros, seu comportamento segue a mesma forma de muitos que os usam. Dando um ar ríspido a toda áurea, o interesse romântico assim com a ambientação do local é quem dá uma áurea mais leve a produção.

Se por um lado, apresentar a ambientação como um personagem soa interessante, ao mesmo tempo se faz cansativo. Mesmo com ótimos planos, a montagem  se faz arrastada demais, podendo contar a mesma história, com pelo menos 15/20 minutos de duração. O trabalho com os atores veio como crescente e com o passar do tempo vemos o bom desenvolvimento entre o diretor e seu elenco. Com muitos planos feitos com câmera na mão, a rotina é uma das armas aqui presentes para existir o diálogo entre o longa e o expectador. É uma construção de uma estética beleza solitária que deu muito certo.

Dentro desse ponto é valido ressaltar a fotografia quase natural de Joshua James Richards. O fato do céu estar o tempo todo nublado, mas com muita incidência de luz, por diversas vezes faz a fotografia estourar. Mas aqui também encontramos o contraste entre o acalanto e a solidão. A maior parte do tempo, as cores são frias e terrais devido a relação braçal com a terra. Porém, quando os protagonistas estão juntos, temos uma coloração mais saturada durante o dia e a noite ela só é amarelada se eles estiverem juntos, caso contrário a frias predominam.

A trilha sonora quase inexistente, de Dustin O’Halloran e Adam Wiltzie, só toca em partes em que o silencio não consegue preencher a narrativa. Esse é outro ponto que mostra a ousadia do diretor, afinal o silêncio, a introspecção e de extrema necessidade para compreender esses personagens que não são tão explícitos quanto poderiam e/ou deveriam. Aqui o barulho da água escorrendo, do vento balançando os galhos, são diálogos para uma visão mais subliminar. Contudo, ao chegar ao seu fim, podemos apreciar a excelente canção “The Days”, de Patrick Wolf, que exalta e a produção e relaxa seu público menos acostumado ao estilo.

O pequeno elenco tem seus altos e baixos, de maneira equilibrada. Cada um deles tem seu próprio momento de destaque, mas é Gemma Jones como Deidre em uma cena chorando ao passar e cheirar a roupa que ela completa a trajetória da matriarca da família Saxby e se torna a melhor profissional do elenco. Ela que começa cabisbaixa e mandona, sem muita feição pelo neto, mostra-se uma personagem madura e bem preparada. Ian Hart como o pai tem um ótimo trabalho corporal e se tratando do emocional ele entrega o necessário, nem mais, nem menos. Já o casal de protagonista é muito oposto com relação as suas presenças. Josh O’Connor vai fazendo seu personagem desabrochar aos poucos e reconhecendo as camadas de Johnny que vemos seu trabalho evoluir. Enquanto Alec Secareanu se mantém com uma entrega linear e com os olhos transbordando compaixão.

Ao nos apresentar um protagonismo que vive se escondendo da família, amigos e de se mesmo, “God’s Own Country” constrói uma narrativa sobre aceitação. Do peso do trabalho braçal à necessidade se se sentir amado, o longa pega em seu pouco desenvolvimento a base de muitos planos contemplativos para ganhar tempo. Talvez a nesse foco, a sua melhor apresentação foi o parto da ovelha e consequentemente a mensagem de que um menor pode e deve proteger o outro, unindo forças e deixando de ser uma minoria. Tocante quando necessário, essa é uma obra de beleza retorica, que dependerá do reconhecimento de seu próprio público na tela, não tendo muita “vida própria”.

*Filme visto no Festival do Rio 2017. Ele não possui trailer com legendas em português, nem previsão de estreia no circuito nacional.


Vakinha

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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2 thoughts on “Crítica: God’s Own Country

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