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CríticaFilmes

Crítica: Grave

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
29 de junho de 2017 3 Mins Read

aU0X5Ano994f3vhWdD5wnpkfcjV“Grave” começou sua trajetória sendo premiado pela FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) no festival de Cannes em 2016 para, logo depois, causar desmaios em algumas pessoas da plateia no festival de Toronto do mesmo ano. Nunca uma história sobre a transição da adolescência para a vida adulta foi, com perdão do trocadilho, tão visceral como a contada pela estreante cineasta Julia Ducournau.

No filme acompanhamos Justine (Garance Marillier), uma jovem tímida e vegetariana, que começa os estudos na mesma faculdade de veterinária em que está sua irmã, Alexia (Ella Rumpf). Durante o trote de inicio de ano, ela é forçada a comer carne animal pela primeira vez, o que leva a garota a sentir um incessante impulso carnívoro, principalmente pelo cru.

O roteiro é esperto em levar a personagem para uma faculdade de veterinária, onde se vê, em todos os momentos, animais mortos sendo dissecados e também grandes quantidades de sangue. As acomodações do local são extremamente opressoras, lembrando uma grande prisão misturada com um abatedouro. As paredes cinzas só saem de evidência por causa dos aventais brancos manchados de sangue dos estudantes. A iluminação é de caráter quase documental, só se desgarrando de sua alta granulação quando usa filtros para cobrir Justine em luzes vermelhas de neon em festas que acontecem no campus ou mesmo durante as cenas em seu dormitório. A direção de câmera faz notar a estranheza das situações com enquadramentos em que os personagens são vistos nos cantos, e economiza na velocidade dos cortes para trabalhar os momentos com paradoxal naturalidade.

O filme está sendo vendido como um terror, no entanto, o vemos mais como um suspense com toques dramáticos. As cenas de canibalismo não causam medo e sim nojo. Toda a sujeira causada pelo sangue, pela carne crua e pelo excremento dos animais são mostrados de forma gráfica e poucas vezes há a ocultação ou mesmo o desvio das câmeras. Isso mostra coragem e fidelidade para o tipo de história que se quer contar. Outro mérito é a excelente maquiagem, que faz com que acreditemos em cada ferida ou pedaço de corpo que é mostrado. Um ato falho é a falta de consequências para muito do que se vê em tela. Há brigas com amputações, humilhações e todos os tipos de bizarrices sem que a polícia ou mesmo a direção da escola sejam alertados, o que tira um pouco do impacto por sua inverossimilhança.

A trama avança apoiada nas descobertas sexuais e carnívoras de Justine, fazendo um claro paralelo à fase de transição da vida adulta para adolescência. Ela descobre seu corpo e seus desejos, luta para suprimir os mais explícitos, mas se entrega à vida com a ajuda da irmã, que também possui os mesmos impulsos. A interação entre as irmãs é interessante porque proporciona ainda mais peso à trama, fazendo o espectador se perguntar se a condição delas se trata ou não de um fator genético. O porte físico frágil de Garance Marillier a transforma no filhote que ainda não descobriu todos os prazeres e mesmo as formas de sobreviver, precisando de uma irmã mais velha e desenvolvida para ajudá-la. Talvez o pior momento seja no final do terceiro ato, quando os roteiristas tentam chocar com informações que já são obvias desde o início para os espectadores mais habituados com as reviravoltas desse tipo de trama, mas nada que atrapalhe a experiência no total.

No final se trata de mais uma boa produção vinda da França, e se você tem estômago forte e preza pela boa execução de um filme, “Grave” é uma boa pedida, mesmo porque é preciso que o cinema respire bem com novas temáticas, nem que elas sejam, neste caso, nojentas.

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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