Escolhido para representar o país na disputa por uma vaga entre os indicados a filme internacional, “Feito Pipa” conta a história sensível de um garoto LGBTQIA+
O longa-metragem “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, foi escolhido pelo Brasil para tentar uma indicação ao Oscar de filme internacional e, assim, dar continuidade à boa fase que o cinema do país vive nas premiações realizadas mundo afora. A tarefa não será fácil, já que as produções de outras nações que concorrerão com ele são de alta qualidade e já foram laureadas em festivais importantes.
Contudo, vale ressaltar o tema sensível da obra de Deberton como uma das qualidades que podem ser levadas em conta pela Academia no momento de definir os indicados. A história acompanha Gugu (Yuri Gomes), um garoto LGBTQIA+ de 12 anos que perdeu a mãe e agora é criado pela avó, Dilma (Teca Pereira), em uma pequena cidade do Ceará.

Trata-se de um tema que sempre atrai olhares, sobretudo em um mundo no qual as pessoas dessa comunidade ainda são maltratadas com frequência. E “Feito Pipa” oferece mais uma importante reflexão sobre o assunto, com um detalhe que o diferencia de muitos outros lançados recentemente: o tom escolhido pelo roteiro de Camila Agustini e André Araújo é mais voltado ao lúdico e ao otimismo do que ao pessimismo, tão frequente nesse tipo de história, o que confere ao filme identidade própria.
Sem dúvida, diante de uma realidade social repleta de crimes e preconceitos contra pessoas LGBTQIA+, é preciso denunciar por meio da arte; ainda assim, é sempre bom ver uma obra em que haja um respiro, graças a um tom infantil e colorido capaz de suavizar a aspereza do tema.

Sim, o filme de Deberton é muito colorido e vibrante, tanto nos figurinos de Gugu quanto nos cenários, sempre ornamentados e bem iluminados. É certo que há percalços na trajetória do garoto, como os impostos por seu pai, interpretado por Lázaro Ramos, que não aceita seu jeito de ser, e o fato de a avó começar a demonstrar sintomas de Alzheimer, condição que ameaça apagar aos poucos o principal laço afetivo do menino.
Tudo isso faz com que a estrutura do roteiro seja montada da maneira como todo cinéfilo conhece de longa data e, portanto, não há grandes novidades nela. O que se destaca é o mesmo clima de otimismo impresso nas imagens, ainda que a cidade onde se passa a história seja cercada por um ambiente árido e isolado, aparentando não sustentar a vida, o que poderia trazer desalento ao espectador.
LEIA MAIS
Look Back | Koreeda Adapta Mangá e Faz Poesia Visual Sobre Amizade e Amadurecimento
Mulher Desconhecida | Um Pesadelo na Copenhague Pós-Guerra
Mestre Zu | Inteligência, Irreverência e Referência de Um dos Maiores Jornalistas Brasileiro
O ambiente seco, contudo, só incomoda os olhares mais sensíveis em alguns breves planos de transição. Na maior parte do tempo, mesmo em situações tristes ou de conflito, “Feito Pipa” acalenta o coração do espectador com uma magia singular, que surge em cenas cuja intenção é sensibilizar, principalmente naquelas que envolvem Gugu e a avó, a qual, em certo momento, devido à doença, já não se lembra dele. É nesse instante que a pipa vermelha com que o garoto brinca, suspensa leve e solta no céu azul, se prende aos galhos de uma árvore e não consegue mais voar.
Gugu, assim como sua pipa, quer voar, e para isso precisa da avó, a única pessoa que o compreende por completo. O problema é que ela vai desaparecendo lentamente e o deixará, em breve, aos cuidados de um pai que, embora demonstre afeto, ainda não consegue superar o estereótipo do filho “macho” que joga futebol e namora garotas. Em razão disso, o longa apresenta uma conclusão mais onírica e poética, deixando para trás qualquer possibilidade de se render à realidade crua, fazendo jus às pretensões de cineastas que desejam apenas pintar com tintas alegres um mundo tão cruel. É uma escolha coerente com o espírito leve que atravessa todo o filme.
“Feito Pipa” foi visto durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O filme será lançado em circuito comercial em 5 de novembro de 2026.
imagem destacada: Divulgação/Paris Filmes



Sem comentários! Seja o primeiro.