7 de dezembro de 2019

“Should Mexico keep us out?” – “Deve o México nos manter fora?” -, estampa a capa de uma revista nas sequências finais de “Gringo – Vivo ou Morto” (Gringo, 2018). A pergunta, propulsora do humor do longa-metragem, inverte a postura segregacionista de Donald Trump, segundo a qual os Estados Unidos deveriam se proteger do país latino com muros. Longe de repetir os chavões do presidente, portanto, o filme abre espaço para uma crítica à sua própria sociedade, a norte-americana. Com isso, os maiores vilões não comandam cartéis clandestinos, e sim luxuosos escritórios em arranha-céus.

Na sala de uma poderosa transnacional em Chicago, o executivo Richard Rusk (Joel Edgerton) atende a um telefonema. Harold Soyinka (David Oyelowo), funcionário responsável por fiscalizar a produção de maconha medicinal no México, sofreu um sequestro. Para resgatá-lo, Rusk e sua sócia e amante, a persuasiva Elaine Markinson (Charlize Theron), precisam desembolsar cinco milhões de dólares. Esse cenário, apresentado já no prólogo, serve de ponto de partida para o roteiro de Anthony Tambakis (“Guerreiro”“Em Busca da Justiça”) e Matthew Stone (“O Amor Custa Caro”“Até que a Fuga os Separe”).

Preocupada em surpreender a todo momento o espectador com reviravoltas, a dupla cria difícil missão para o trio de montadores. Reféns de um texto irregular, Luke Doolan (“Reino Animal”“O Presente”), David Rennie (“A Montanha Enfeitiçada”“Idiocracia”) e Tatiana S. Riegel (“Eu, Tonya”“O Verão da Minha Vida”) tampouco emprestam coesão à narrativa. Os múltiplos núcleos parecem, desse modo, desconexos e fragmentários. A história do jovem casal Miles (Harry Treadaway) e Sunny (Amanda Seyfried), em especial, pouco ou nada contribui para o resultado final. De outra forma, suas cenas dificultam a construção de ritmo e obedecem apenas à lógica de improváveis casualidades.

Se falha nesse aspecto, o diretor Nash Edgerton (“O Quadrado”) beneficia-se, no entanto, de um talentoso elenco. Seu irmão, Joel (“O Presente”“O Grande Gatsby”), equilibra com competência malícia e masculinidade frágil para interpretar um traficante de colarinho branco. Contracenando com ele, a experiente Charlize Theron (“Monster – Desejo Assassino”, “Mad Max – Estrada da Fúria”) mune sua personagem de ímpar sedução para manipular parceiros de negócio. Juntos, eles superam a inconsistência dos diálogos e criam engraçadas caricaturas de uma elite empresária. David Oyelowo (“Selma – Uma Luta Pela Igualdade”“Nightingale – Peter e Sua Mãe”), por outro lado, vive com intensidade a “aura de oprimido” do protagonista. Sua descontraída performance, rica em expressividade, garante ao filme um humor sincero.

Os coadjuvantes, contudo, não repetem esse bom desempenho. A Carlos Corona (“A Guerra de Manuela Jankovic”“Pipoca Mexicana”), por exemplo, falta domínio do tempo cômico no papel de Villegas, traficante apaixonado pelos Beatles. A contradição entre violência e apreço pela música não alcança, assim, todo o potencial satírico, e o esteriótipo do mexicano mafioso não se desfaz completamente. Ao lado dele, porém, coexiste o do americano corrupto, representado por Richard. Aproveitando-se da mão de obra barata e da fiscalização frágil do país vizinho, o empresário estadunidense revela-se o principal vilão da trama. Torna-se coerente, logo, a questão final: “Deve o México nos manter fora?”.

Assistir a “Gringo – Vivo ou Morto” demanda, por fim, um desprendimento do espectador. Em primeiro lugar, ele deve deixar de lado o roteiro falho e o ritmo oscilante. Poderá, somente então, divertir-se por alguns minutos. O talento de Oyelowo, Edgerton e Theron reserva, afinal, momentos de espontaneidade em meio a um todo artificial e genérico.

* O filme estreia dia 3 de maio, quinta-feira.

 

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Luiz Baez

Carioca de 23 anos. Mestrando em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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