Crítica: Eu, Tonya

Um dos grandes escândalos midiáticos dos anos 1990 foi a história de Tonya Harding, a patinadora de gelo que, supostamente, mandou quebrar o joelho de uma de suas competidoras para garantir uma vaga nas Olímpiadas. Pintada como vilã após o caso, Harding tem a sua trajetória narrada, 23 anos depois, em Eu, Tonya”, uma produção dirigida por Craig Gillespie e indicada a diversas premiações, incluindo três Oscars.

Baseada em “registros contraditórios”, como o próprio filme diz, a trama narra a história de vida de Tonya (Margot Robbie), desde a sua infância e a sua ascensão no esporte até o ataque a sua competidora e as consequências que ele provoca. O enredo também foca bastante em seus relacionamentos problemáticos com a mãe, LaVona (Allison Janney) e com o marido Jeff (Sebastian Stan). Tudo isso é intercalado com depoimentos dos personagens sobre os acontecimentos, dando um ar de mockumentary para a produção, além dos toques de drama e comédia.

Essa mistura de gêneros é realizada de maneira eficiente, tanto pela direção de Gillespie quanto pelo roteiro sagaz de Steven Rogers. Toda a narrativa é apresentada como o relato dos próprios personagens, o que a deixa sujeita a discordâncias entre os seus pontos de vista – ponto que é bem retratado em cenas que usam o splitscreen para mostrar a maneira diferente como a protagonista e o marido reagem a determinados eventos. Essas contradições não tiram a credibilidade da história, mas abrem espaço para a suspeita de que seus narradores não são confiáveis.

Também são constantes as quebras da quarta barreira, na maior parte em tentativas de adicionar humor ao longa. Enquanto algumas dessas funcionam, as interrupções da história causadas pelas entrevistas de Tonya e de LaVona, por exemplo, outras parecem deslocadas e forçadas, como a treinadora de patinação lembrando constantemente ao espectador que uma cena realmente acontece, sendo que tal momento não é surreal o suficiente para precisar de um aviso separado sobre sua veracidade.

Esse humor também está presente em outros pontos do roteiro, mas nunca de maneira gratuita, já que muitas das cenas de alívio cômico também desenvolvem elementos importantes da trama, e, geralmente, desmentem os próprios personagens, como é o caso de uma sequência que mostra o real motivo de Tonya ter ido mal em sua primeira Olimpíada, enquanto ela fala uma desculpa por voice-over. Tudo isso é amarrado por uma montagem ágil, que transita sem esforço – e sem causar estranhamento – entre a trama principal, as entrevistas (em razão de aspecto menor) e os trechos de evidência, que simulam fitas VHS.

Porém, o longa não acerta em tudo. O principal aspecto negativo é a sua trilha sonora que, consistindo em vários pop rocks, parece que foi criada já com o objetivo de montar uma playlist no Spotify. Enquanto isso não é um problema por si só, a escolha das músicas é literal demais e acaba distraindo mais do que ajudando: a apresentação de LaVona como uma mulher dura e antipática é acompanhada por “Devil Woman” (de Cliff Richard), já o divórcio de Tonya e seu marido acontece ao som de “Goodbye Stranger” (do Supertramp).

Já os efeitos de computação gráfica que colocam o rosto de Margot Robbie por cima da patinadora são bons o suficiente para passarem despercebidos, ao menos que o telespectador esteja focado especialmente em vê-los. A maquiagem utilizada para envelhecer os atores também é de destaque, principalmente a de Allison Janney, que sofre as maiores alterações ao gravar os depoimentos da mãe, já idosa.

A escolha de elenco também foi certeira, não só pela capacidade de atuação como pela semelhança com as pessoas que estão interpretando. Indicada ao Oscar, Margot Robbie passa perfeitamente a tragicidade de sua personagem, incluindo drama e humor na dosagem certa. Porém, a tentativa de passar Robbie como uma adolescente (que consiste na atriz usando um aparelho), não é bem-sucedida e acaba gerando um pouco de comédia não intencional.

O elenco de apoio também é sensacional. Sebastian Stan chama atenção ao encarnar o marido abusivo, mas quem é o destaque da produção é Allison Janney, que também tem sido indicada e vencido diversas premiações. Elevando o estereótipo da mãe severa ao extremo, LaVona consegue roubar todas as cenas em que aparece com seu temperamento explosivo e atitude imprevisível.

“Eu, Tonya”, porém, não se destaca somente por sua técnica e atuações, mas também pela sua temática de abuso, extremamente relevante hoje em dia. Grande parte da história é dedicada às agressões, físicas e psicológicas, que Harding sofreu não só da mãe e do marido, mas também da opinião pública, que criou um circo midiático, além de denunciar o modo desleixado que a polícia trata violência doméstica, que, mesmo com o filme se passando nos anos 1990, infelizmente ainda é realidade em 2018.

No geral, “Eu, Tonya” é uma produção que consegue pegar o gênero da cinebiografia, com seus clichês exaustivos, e transformar em algo diferente. Carregado por grande competência técnica e ótimas performances, é definitivamente um título para ser conferido durante a temporada de premiações.

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