Crítica: Guava Island

O nome Childish Gambino ganhou os holofotes e o reconhecimento do público em geral após o sucesso do clipe musical “This is America”. Donald Glover, o homem por trás do pseudônimo, já era conhecido na TV e nos cinemas, e adquiriu importância em um clipe que denuncia o racismo e o capitalismo exacerbado de forma crua e impactante. Dividindo seu tempo entre a atuação em grandes produções hollywoodianas e seus projetos autorais na música e na escrita de roteiros, Glover hoje é um artista requisitado e já respeitado, mesmo tendo apenas 35 anos. Por isso, quando está envolvido em um novo projeto, chama a atenção de muita gente.

Dito isso, é até anormal que o seu novo filme “Guava Island” não tenha recebido uma atenção maior por parte do marketing da Amazon, que lançou a produção em seu serviço de streaming sem muito alarde, mesmo tendo no elenco a grande estrela Rihanna e Letitia Wright, tão celebrada por seu papel de Shuri em “Pantera Negra”. Talvez o discreto lançamento de “Guava Island” seja porque não se trata de uma superprodução, e sim um filme quase independente. Até na sua duração é econômico: cinquenta e cinco minutos. No entanto, mesmo com poucos minutos de tela, a mensagem do roteiro Stephen Glover é clara, poderosa e alcançara seu objetivo de cunho social.

Na história, o músico Deni Maroon (Glover) vive com sua namorada Kofi Novia (Rihanna) em uma ilha dominada pelo tirano Red Cargo (Nonso Anozie), que usa toda a população do local como força de trabalho em sua fábrica. Como em um país de terceiro mundo da américa central, Cargo possui sua própria milícia para manter as pessoas controladas em uma realidade fechada e sem perspectiva de futuro. Maroon, o mais famoso artista, canta todos os dias na rádio para levar um pouco de alegria para o povo. Ele também pretende organizar um festival de música, mas possui seus planos frustrados por Cargo, que não quer seus trabalhadores com outra coisa na cabeça que não seja o trabalho. O conflito entre os dois surge daí.Conhecidamente, o embate entre a liberdade individual e a prisão do capitalismo criminoso só terminará por meio de uma revolução popular. O problema é que os moradores de Guava Island estão presos em uma realidade opressora. Essa prisão é reforçada pela escolha do diretor Hiro Murai em filmar com uma razão de aspecto 1.33, que corta as laterais da tela e tira a noção de espaço e a visualização total do ambiente. Ou seja, todos os personagens estão limitados a um pequeno quadrado, impossibilitados de contemplarem a beleza do paraíso tropical em que vivem. A fotografia, que emula os filmes em película em 16mm, dá ainda mais a impressão de algo perdido e mantido no passado, fora do mundo exterior.

O único que consegue visualizar o horizonte é Maroon por meio de sua arte. Arte essa que é exposta em números músicas durante a projeção (inclusive um pouco de “This is America”, citado acima), que empolgam a plateia e o povo. O som dos batuques e do violão aliadas à voz poderosa do cantor traçarão o caminho para além da tirania. Com certeza, “Guava Island” gerará discussões, que poderiam ser ampliadas se os outros personagens fossem melhor utilizados (é impressionante, mas Rihanna não canta) e se a história ganhasse mais alguns minutos de desenvolvimento. Claro que são apenas pontos de ampliação que não prejudicam o resultado de uma obra digna do cinema relevante no campo político e social da atualidade.

Fotos e Vídeo: Divulgação/Amazon

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