10 de dezembro de 2019

Prestigiar os documentários não é de costume do grande público. As atenções são voltadas para os inúmeros blockbusters lançados durante o ano ou ao novo filme ganhador do Oscar. O que todas essas pessoas não sabem é que grandes documentários estão presentes na premiação da academia americana, sendo, por muitas vezes, mais atrativos que as ficções indicadas. Também, com alguma sorte, conseguem bons números nas bilheterias. Um desses é a produção da Netflix “Ícaro” que, evidentemente, não conta com números de bilheteria, mas foi devidamente indicado ao Oscar.

“Ícaro” começa com seu realizador californiano Bryan Fogel tentando descobrir um mecanismo que coloque em prova os extremamente seguros exames antidopings. No mesmo estilo de “Super Size Me”, Fogel decide tomar anabolizantes para ter seu desempenho melhorado em uma competição de ciclismo semiamadora. Para isso, ele busca a ajuda de especialistas neste tipo de exame, até chegar a Grigory Rodchenkov, um químico russo que indica ao atleta todos os procedimentos para vencer a prova e se manter limpo em eventuais testes. Passados trinta minutos de projeção, os caminhos do filme são desviados quando nos é revelado (a nós e aos realizadores) que Rodchenkov é ex-diretor da agência antidoping russa e um dos acusados de participar do massivo programa de Doping financiado pelo Kremlin em varias Olimpíadas.

A partir daí, a narrativa nos leva aos esquemas escusos que fizeram da Rússia uma potência olímpica durante décadas. Criando um sincero laço de amizade, o Russo e o Americano decidem se arriscar e levar as provas para o governo dos EUA e também para renomado jornal New York Times. Essa decisão gera momentos de tensão que são competentemente confeccionados pelo roteiro: a fuga de Rodchenkov de Moscou é uma delas, assim como as sequências de tensão e paranoia às escuras com perseguidores imaginários ou não; de certo, dignas de filmes de espionagem que se passam durante a guerra fria (termos como KGB são usados frequentemente, mesmo todos sabendo que a agência de inteligência russa já não usa mais esse nome).Se no início o documentário puro era desfeito com o seu próprio diretor como protagonista, falando diretamente com a câmera, feito um vlog, depois das descobertas bombásticas, Fogel coloca sua câmera no tripé e colhe o depoimento de Rodchenkov intercalando-o com imagens de arquivo e reconstituições em animação de fatos não filmados. Vladimir Putin é mostrado como o grande vilão que arquitetou todo o plano para que pudesse ganhar medalhas, e com elas a aprovação da população. Aprovação essa que facilitaria no futuro suas manobras politicas (como exemplo: os ataques contra a Ucrânia). Política e esporte caminham em um perigoso paralelismo que acaba sendo prejudicial para todos que amam e dão a vida em uma olimpíada. Dados são explanados e os números assustam. Atletas renomados são indiciados e a tradição esportiva de um povo é manchada. Governantes fazem seu papel e negam veementemente que haja algum tipo de irregularidade e apontam os acusadores como traidores fora de suas faculdades mentais. Putin chega a dizer que nem reconhece seu ex-diretor da agência antidoping, sendo que, em 2014, o país sediou uma olimpíada de inverno. São fatos com provas, mas desacreditados pelo poder.

Duas horas de fatos dão vazão a importantes perguntas: Será apenas a Rússia ao injetar drogas em seus atletas em competições de alto nível? Não caberia uma investigação ainda mais profunda em todas as superpotências do esporte? Enquanto as respostas não são dadas, àqueles que ousam dizer a verdade precisam viver escondidos e protegidos dos agentes de sua própria pátria. Grigory Rodchenkov atualmente se encontra em proteção à testemunha em algum lugar dos EUA, longe de sua família. Ele vendeu sua alma ao diabo e agora paga o preço sem direito à redenção.

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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