Crítica: Jogador Nº 1

Ser cinéfilo nos anos oitenta e noventa foi um grande prazer. Nessas décadas surgiram grandes clássicos do cinema pop norte americano que se tornaram sucesso em todo o mundo e criaram uma legião de fãs. Um dos artistas que está no topo dos letreiros de muitos desses filmes é Steven Spielberg. Como diretor, produtor ou roteirista, Spielberg fez com que as pessoas se apaixonarem pela sétima arte e ajudou a formar muitos dos que estão na indústria de Hollywood hoje em dia. O segredo foi carregar seus filmes de emoção e magia em histórias humanas, mas usando a fantasia e a ficção cientifica como agregadores narrativos.

As produções do cineasta são usadas como referência há muito tempo, o que não deixou margem para surpresas quando Ernest Cline lançou seu livro “Jogador Nº 1” em 2011, se apropriando de ícones como “De Volta para o Futuro”, “Gremlins”, etc. Mas, “Jogador Nº 1” não se contenta em Spielberg, também há “King Kong”, “Godzilla”, “O Iluminado” (toda uma importante sequência reverencia Kubrick e Stephen King), entre outros. O cinema não é o único a ser usado como matéria prima, conferindo aos games um papel ainda mais importante para a trama que se passa em 2044, onde Wade Watts, assim como o resto da humanidade, prefere o simulador OASIS ao mundo real. Quando o seu criador, o excêntrico James Halliday morre, os jogadores devem descobrir a chave de um quebra-cabeça diabólico para conquistar sua fortuna inestimável.

Ninguém mais indicado para dirigir uma adaptação de um livro com essa proposta do que o próprio Spielberg e, sem sombra de duvidas, o homem sabe para onde apontar suas câmeras, mesmo que essas sejam na maior parte do tempo virtuais, emulando um mundo de RPG. Nas mãos de alguém com menos talento, todo o significado além da pirotecnia seria desperdiçado e temas como o isolamento, a amizade e a fuga da realidade perderiam a importância. Realidade distópica em cidades que mais parecem grandes favelas amontoadas em toneladas de lixo. OASIS é o que faz as pessoas fugirem dessa miséria e como os celulares, os aplicativos, as redes sociais e os próprios jogos eletrônicos do ano de 2017, proporciona a fuga em vidas imaginarias na pele de avatares escolhidos pelo jogador. Igualmente como hoje, há as corporações que visam lucrar com a escravização eletrônica dessas pessoas e exploram o que todas elas possuem: seus sonhos.Um grupo de jovens às margens lutando contra um vilão maior e poderoso. Com certeza se trata de uma fórmula batida, no entanto, a construção narrativa, como um jogo, pedia que esses personagens subissem de level assim que as fases fossem superadas e que reunissem habilidades para o final apoteótico, ao mesmo tempo em que prestaria homenagem a todas as obras que usaram dessa tal fórmula no passado. Como em “Gonnies”, a aventura dos amigos é perigosa ao mesmo tempo em que diverte a plateia. As batalhas são emocionantes por misturarem tantas figuras nerds conhecidas. Tudo é montado de forma frenética, nunca deixando que a sensação de clímax se esgote.

Se a ação, aliada à trilha sonora com os hits “We’re Not Gonna Take It” do Twisted Sister, “Stayin’ Alive” do Bee Gees e “I Hate Myself For Loving You” de Joan Jett proporcionam frio na espinha, o mesmo pode ser dito da constatação feita pelo roteiro de que a prisão virtual na qual estamos pode ser permanente se caso não buscarmos laços humanos. A integração entre pessoas é primordial em um mundo conectado por telas que projetam o artificial. No terceiro ato isso fica evidente e o chefe final só poderá ser vencido quando o grupo formado por Parzival (Tye Sheridan), Art3mis (Olivia Cooke), Aech (Lena Waithe), Sho (Phillip Zhao) e Daito (Win Morizaki) saberem o momento de jogar e também de desconectar.

 

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