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Crítica

Crítica: Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental

Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental
Imagens: Divulgação/Imovision

Após o término de “Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental”, dá para constatar que nunca um filme romeno foi tão brasileiro. Contudo, quem mora nos EUA, na Rússia, na Alemanha, na Chechênia etc. também chegará à mesma conclusão em relação aos seus respectivos países.  Isso é assustador, mesmo que o longa de Radu Jude se apresente como uma comédia. Para contextualizar, basta dizer que a história é sobre uma professora primaria de uma renomada escola que filma uma noite de sexo com seu marido, mas para a sua desgraça pessoal e profissional, o vídeo vai parar na internet e consequentemente nos celulares e computadores dos pais dos estudantes. A professora então é chamada para uma reunião com esses pais, e o que era para ser uma conversa civilizada vira um julgamento ao estilo medieval (com direito até a tochas). O que se vê a partir daí é um amontoado de homofobia, xenofobia, racismo, machismo e fake News vindo de pessoas que são consideradas a elite daquela sociedade.

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A semelhança dessa realidade fílmica com a enfrentada pelos brasileiros na atualidade bolsonarista é evidente. É fácil se identificar com a pobre mulher que tenta explicar conceitos óbvios de sociologia e história para mentes tão limitadas. É ainda chocante escutar as barbaridades que saem da boca de indivíduos com comportamentos fascistóides, tanto no filme quanto no dia a dia tupiniquim. Infelizmente, esse é um problema que parece não ter uma solução rápida, então cabe à arte evidenciá-lo para que talvez ele não caia na normalidade.

“Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental” é uma peça que se propões a tal tarefa, e o faz em capítulos. O primeiro capítulo introduz a personagem e os conflitos que o tal vídeo pornô causa. Ela, chamada para a tal reunião, cruza Bucareste a pé, e a cidade vai entregando um pouco do horror que está por vir. As ruas são hostis com a professora. Ela é assediada e ofendida por homens, passa por ruinas de prédios antigos e se depara com enormes e igrejas para fazê-la se render às tradições excludentes do passado.  Símbolos do capitalismo, como a boneca barbe e seus utensílios domésticos e os cadernos de princesas da Disney, aparecem para colocá-la em seu devido lugar. Tudo isso ganha muita atenção das câmeras de Jude, que usa lentas panorâmicas para ir da sua protagonista até os objetos ou fachadas de interesse. A direção aqui não se intromete na jornada, ela é apenas uma testemunha da caminhada da vergonha de uma mulher.

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O segundo capítulo, no entanto, a deixa de lado para que uma espécie de ensaio semidocumental tome forma. Nele, imagens que parecem aleatórias são explicadas com palavras e algumas frases. A intercalação entre imagens produzidas pela montagem também serve como ferramenta para passar a mensagem pretendida pelos cineastas, como quando é mostrado uma caixa de donuts – feitos por uma doceria chamada revolução francesa – precedida por ilustrações da revolução do século XVIII na França. Logo depois, outras imagens, agora da revolução romena (que derrubou o regime do ditador Nicolae Ceaușescu), são seguidas de um vinho produzido no ano do conflito: 1989. Claramente, o vinho fica mais caro e pode ser consumido mesmo depois de muito tempo, o que não acontece com os donuts de consumo imediato. Ou, em outras palavras: o povo da Romênia continua lutando desde 1989 e sua luta fica cada vez mais custosa, enquanto os franceses resolveram seus problemas e agora podem usufruir das delícias da democracia verdadeira. Todo o capítulo é recheado por momentos como esse, cabendo ao próprio espectador decifrá-los e usá-los para uma melhor compreensão sobre a obra.

Imagem: Divulgação/Imovision

Depois da difícil jornada, por fim, o terceiro capítulo toma forma com o julgamento disfarçado de reunião. Nesses últimos minutos do filme, o escárnio é completo. Fica evidente que as pessoas de bem representadas pelas mulheres de classe, por um padre, um membro do exército, uma muçulmana, um pseudointelectual, um piloto de avião, um cigano negro e alguns idosos são, na verdade, parte do vírus que mata aos poucos a Romênia e qualquer outro país que os possua em maioria. Durante o julgamento, todos usam máscaras para se proteger do coronavírus, mas elas bem que serviriam para proteger contra as palavras proferidas por bocas que se acostumaram a dizer qualquer atrocidade sem nenhum tipo de restrição.

Terminados os capítulos, três finais para a história são apresentados. Nenhum deles será descrito aqui para evitar spoilers, mas ficará fácil para qualquer espectador com um pouco de cérebro escolher exclusivamente um deles. Talvez ele sirva como exemplo para que se extirpe os fascistas da face da terra. Será catártico!

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Esse filme foi visto durante a 45ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Vídeo: Divulgação/Berlinale

Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental
Crítica: Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental
Sinopse
A professora Emi vê a sua carreira e reputação ameaçadas depois de uma ‘sex tape’ pessoal ir parar acidentalmente à Internet. Forçada a enfrentar os pais dos seus alunos que exigem a sua demissão, Emi recusa-se a ceder à pressão.
Prós
Tema político atual
Crítica ao fascismo e a tudo de ruim que ele gera
Roteiro tenta ser diferente em sua abordagem dos problemas sociais
Boa direção
Contras
4
Nota
Written By

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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