O filme português “A Bela América” é uma comédia dramática dirigida por António Ferreira (“Pedro e Inês”, “Camané: A Guerra das Rosas”). A história acompanha Lucas (Estêvão Antunes), um homem humilde que trabalha como cozinheiro. Um dia, ele decide colocar em prática um plano completamente insano: se infiltrar clandestinamente na casa da belíssima América (São José Correia), uma famosa estrela de TV e candidata à presidência. Deixando pratos únicos e extraordinários para a mulher todas as noites — sempre mantendo sua identidade em segredo —, Lucas tenta conquistar o coração de América. Até que, uma hora, ela pede que ele se revele.

O filme, como uma boa comédia dramática, começa com um belo gancho e continua num crescendo de desenvolvimento de personagens típicos desse gênero – a Musa, a melhor amiga, o amigo que “se vira” e sempre ajuda o “mocinho”, as adversidades e um certo triunfo. Mas isso não significa que não haja criatividade e carinho com esses personagens, pois o diretor mostra ter um senso crítico e consciência social, o que faz muita, mas muita falta no nosso Cinema, por colocar justamente nessa história a política. Sim. A velha e hoje divisiva política, que percorre o filme de forma leve e até didática, informando o quanto esse componente faz parte das nossas vidas e molda a realidade ao nosso redor, queiramos ou não. Inclusive há uma determinada cena que remete diretamente às nossas eleições e que chega a ser temerária e depois hilária de forma involuntária e independente da forma como é colocada no filme, demonstra a necessidade de conhecer os candidatos que estão na disputa de uma eleição.
Voltando à parte romântica, que show o ator que interpreta Lucas, e que na entrevista após o filme, o próprio diretor disse ser novato. Que carisma, que figura humana. Magro, cabelos desgrenhados e na medida do possível inocente, é ele que nos leva pelas turbulências da vida de trabalhador nas ruas de uma Coimbra longe do centro e das paisagens dos campus estudantis e nos mostra a periferia, gente do povo que luta para sobreviver. Com um enorme talento culinário, mas falta de oportunidades, luta para sobreviver e cuidar da sua família, tudo isso quando se apaixona perdidamente pela candidata à presidência, América.
Fantástica também é a atriz que dá vida à personagem do título e alvo da paixão de nosso protagonista – São José Correia (sim, é o nome dela)! A Bela América interpretada por ela é linda, imponente, forte e, ao mesmo tempo, quando ninguém vê, mostra a fragilidade de quem está buscando uma conexão que só vamos descobrir o motivo no final do filme.
Os outros atores, que podemos até chamar de coadjuvantes, embora façam parte de um mosaico que, sem eles, o protagonista não nos traria tanto valor, também estão muito bem, como a mãe (uma vedete vaidosa), o pai, a melhor amiga (libertária, abnegada e hilária) e o primo bonachão.

“A Bela América” é um filme que, por vezes, flerta com temas pesados como despejo, luta pela sobrevivência, assédio, abuso de poder, que nos são mais caros e pungentes hoje em dia de uma forma direta, mas com um gostinho de anarquia e carinho pelos seus personagens. Uma rara surpresa e também uma mistura certeira de comédia dramática, com toques de culinária fina (o diretor nos disse que os pratos elaborados no filme foram criados por um Chef paulista) e luta pela sobrevivência, que nos faz refletir, pois as adversidades de Lucas são as mesmas da maioria das pessoas no mundo. Só faltou uma melhor organização sobre o que trazer ou não de background (história e motivações) de alguns personagens centrais… Cremos neles, torcemos por alguns deles, mas não sabemos porque se comportam de determinada maneira, o que nos faz questionar alguns de seus atos. Porém, nada que estrague a bela (com perdão do trocadilho) diversão e reflexão que esse filme necessário e que poderia servir de modelo ou inspiração para o Cinema Nacional, carente de histórias com essa abrangência! Um bom filme de autor com algo a dizer e o faz da forma mais divertida e sensível possível.
Este filme foi exibido durante a 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
Por Roberto Rezende



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