Connect with us

Hi, what are you looking for?

Crítica

Crítica: Máquinas Mortais

“Como uma sociedade tão avançada pode ser tão burra?”

Na mitologia helênica, uma caixa encerra todos os males do mundo. Não é incidental, logo, o nome de Pandora Shaw, peça-chave na trama de “Máquinas Mortais” (Mortal Engines, 2018). Homônima da mulher grega, a londrina dedica-se a escavações arqueológicas em um mundo pós-apocalíptico. Entre as suas descobertas, um misterioso artefato reforça o paralelo com a Antiguidade Clássica. Diferentemente de sua antepassada, contudo, Shaw não sucumbe à curiosidade. Sabe, afinal, os perigos representados por aquele objeto. A Medusa, uma arma de energia quântica, desperta nela tão somente um ímpeto museológico.

O “grande arqueólogo” Thaddeus Valentine (Hugo Weaving), por outro lado, encarna o sublimado desejo de destruição. Após a “Guerra dos Sessenta Minutos”, a crosta terrestre fragmentara-se em mil pedaços, e tivera início a era das Grandes Cidades Predadoras do Oeste. Nesse cenário, Londres prosperava sob o comando do prefeito Magnus Crome (Patrick Malahide) e sua política de darwinismo municipal. Vivendo como uma Cidade Tração, cujas gigantes rodas possibilitavam um nomadismo, a metrópole extraía seus recursos por meio da incorporação de cidades menores. Contra tal política insurge Valentine. Para ele, o iminente esgotamento do modelo justificaria destruir e cruzar a muralha de Shan Guo, atrás da qual se estabeleciam núcleos de residência fixa, as chamadas “terras além”.

Advertisement. Scroll to continue reading.

A interessante premissa, baseada nos livros de Philip Reeve, apropria-se da ficção pós-apocalíptica para olhar com aguço o presente. Logo nas primeiras cenas, o humor dita o tom quando os simpáticos minions se apresentam como deidades norte-americanas. Em seguida, no entanto, a sobriedade substitui a descontração, e a ingenuidade predomina sobre a crítica. Ao falar sobre a “Era das Telas”, por exemplo, o jovem Tom (Robert Sheehan) aponta para a regressão na escrita. Se as pessoas realmente desaprenderam a escrever, não há como afirmar. Julgado o roteiro de “Máquinas Mortais”, porém, tal sentença encontra respaldo.

Escrito pelo mesmo trio de “Senhor dos Anéis” – incluindo o aclamado Peter Jackson -, o texto aposta em reviravoltas e frases de efeito. O resultado é uma comicidade não intencional, agravada, ainda, pelo caráter afetado das atuações. Ao interpretar a rebelde Anna Fang, a cantora sul-coreana Jihae (foto), especialmente artificial, é vítima de uma dupla falta de experiência: a sua e a de Christian Rivers, estreante na direção de longas-metragens.

Rivers, um premiado especialista em efeitos visuais, trabalhara com Jackson em muitos de seus filmes – entre eles, “King Kong” (2005), pelo qual venceu um Oscar. Era de se esperar, portanto, uma grande riqueza visual de “Máquinas Mortais”. Não obstante a expectativa, o cineasta fracassa. Ao aventurar-se na direção, a Christian Rivers falta a criatividade de Peter Jackson. Como consequência, o universo imagético aparenta genérico e pouca justiça faz à literatura steampunk de Reeve.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Como um cartão de visitas para a tetralogia de Philip Reeve, “Máquinas Mortais” deixa um gosto amargo na boca. Torna-se improvável, desse modo, até mesmo apostar em uma continuação. Ainda assim, por trás de todos os problemas, gestam boas ideias. Nesse sentido, talvez a estreia de Christian Rivers cumpra uma função: a de chamar atenção para os livros de Reeve. Para um filme que acredita na morte da escrita, já é um grande – e paradoxal – passo.

* O filme estreou hoje, dia 10 de janeiro, quinta-feira.

Advertisement. Scroll to continue reading.

Fotos e Vídeo: Divulgação/Universal Pictures

Reader Rating3 Votes
4.6
3
Advertisement. Scroll to continue reading.
Written By

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Você também pode ler...

Crítica

Em 1982, Tom Cruise pilotou caças F14 supervelozes no clássico pop “Top Gun”. Em 2022, Tom Cruise pilota caças F18 hiper velozes no aguardado...

Filmes

Um dos grandes escritores e roteiristas americanos, Michael Crichton foi responsável por grandes clássicos do cinema, entre eles o sucesso de bilheteria “Jurassic Park”. Crichton...

Filmes

Nikolaj Coster-Waldau, o Jaime Lannister da série de TV “Game of Thrones”, está na nova produção da Netflix “Against The Ice”. Para promover o...

Crítica

Roteirizado por Richard Wenk (“O Protetor 2”) e dirigido por Matin Campbell (de “007 Cassino Royale”), especialistas em longas de ação e espionagem, “A...

Advertisement