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CríticaFilmes

Crítica: Martírio

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Convidado Especial
25 de abril de 2017 3 Mins Read
A luta por visibilidade

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Com filmagens de arquivo datadas do final dos anos 1980, quando o documentarista Vincent Carelli já era envolvido com a questão indígena, e principalmente com os Guarani Kaiowá localizados no interior do Mato Grosso Sul. É criado um parâmetro histórico daquela época, analisando a conjuntura das condições indígenas da região, em paralelo com personagens que vivenciaram os conflitos durante todo este período até hoje.

Na área documental o roteiro funciona como um ponto de referência para a construção daquilo que deseja ser contado, pois naturalmente nem tudo que foi previamente escrito acontece na prática. Permanecendo como uma ferramenta para o auxílio na construção do filme na hora de juntar todo o material para sua montagem, logo ele mantem-se em constante processo de tratamento. E nesta construção específica de “Martírio”, além do roteiro, Carelli produziu uma pesquisa histórica enorme e muito bem detalhada sobre o contexto dos vários processos pelos quais as tribos sofreram em território nacional.

O aprofundamento de vivência que é necessário para filmar um documentário deste porte e importância é real. Por já estar presente naquele meio, não existe uma adaptação entre personagens e câmera. Os índios já estavam acostumados com a presença da equipe em seu território há bastante tempo, isso possibilitou a imersão que a narrativa necessitava para viabilizar entrevistas e imagens de apoio suficientes e de qualidade.

A perspectiva da narração em primeira pessoa criada pelo diretor, envolve o espectador durante suas quase 3 horas, principalmente pela capacidade da montagem em conseguir encaixar todo o material na linha temporal da produção. A complementação do que é mostrado tendo como referência os arquivos históricos, e a capacidade da produção em encontrar indígenas para contar a história do povo do qual fazem parte, são sempre na visão coletiva da cultura pertencente. Muitos dos diálogos durante as entrevistas são recheados de ensinamentos para todos seres humanos, a noção de pertencimento e coletividade está enraizada no sangue de cada Guarani.

A fotografia de Ernesto Carvalho, na maior parte do tempo feita com a câmera na mão, sempre acompanhando a movimentação dos índios pelo território desnivelado, torna tudo mais cru e verossímil. As aldeias visitadas localizam-se em lugares diferentes uma para outra, uma em específico encontra-se na beira de uma estrada movimentada, e a partir disto cria-se a tensão por parte do que pode acontecer a qualquer momento, devido aos constantes “acidentes”, tendo membros da tribo como vítimas. A composição da fotografia inevitavelmente é feita pela paisagem local, porém sempre buscando o encaixe com os simbolismos presentes deixados pelos indígenas, como suas casas, animais, plantações e cemitérios.

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O sentimento frente a tudo que estamos assistindo transmite um clima dramático inevitável, alternando entre a comoção pela situação vivida pelos indígenas, a tensão em relação ao envolvimento dos fazendeiros e as constantes disputas pelas terras. O misticismo também está presente em sua cultura, em cada diálogo vindo do cacique Kaiowá até a criança mais inocente, todos sabem qual sua origem e pelo motivo que estão lutando.

O ponto de vista daqueles que são contra as demarcações de terras a favor das tribos também estão sendo expostos. Nos discursos espalhafatosos no Congresso Nacional, são usados como um “alívio” para o espectador, demonstrando todo o conservadorismo e o método da violência de costume. Além do mais foram feitas filmagens em um leilão de animais, com o objetivo de arrecadar quantidade suficiente de verba para combater as invasões indígenas, deixando claro o ponto que esta batalha desonesta chegou.

Carelli dedicou boa parte da sua vida como indigenista, e acreditando na força da transformação através do cinema, foi criado um universo dentro de toda a problemática relacionada aos conflitos entre demarcações das terras indígenas contra os interesses do agronegócio. A produção para o finalização deste documentário é resultado de uma empreitada que poucas vezes foi vista na televisão e muito menos no Cinema brasileiro. A origem de um povo foi abordada tendo como base uma tribo específica, e isto foi o suficiente para tornar o filme uma voz para qualquer que seja o rosto daqueles que não a tem.

“Martírio” faz parte da Sessão Vitrine Petrobrás e teve estreia no Brasil no dia 13 de abril.


Por Guilherme Santos

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