Mahnaz Mohammadi usa silêncio, memória e uma câmera inquieta para acompanhar uma mulher que deixa o confinamento sem conseguir recuperar a pessoa que era antes dele
Durante quase vinte minutos, Roya não tem um rosto. A câmera ocupa seus olhos. O campo de visão é limitado pelo tecido que cobre sua cabeça, pelas ordens para olhar para baixo e pela própria impossibilidade de compreender exatamente onde ela está. Vemos pés, chão, corredores, lampejos de sangue, pedaços de corpos e uma luz fluorescente que parece nunca desligar. Ouvimos gritos, ameaças, pancadas e comandos vindos de pessoas que quase nunca conseguimos enxergar por inteiro.

Mahnaz Mohammadi começa “Roya” retirando do espectador aquilo que normalmente o cinema oferece com facilidade: distância. Não estamos olhando diretamente para uma mulher presa. Por alguns minutos, estamos presos junto com ela.
Roya, interpretada por Melisa Sözen, é uma professora iraniana mantida na prisão de Evin, em Teerã, por suas convicções políticas. Para sair, precisa aceitar uma confissão televisionada e renunciar publicamente às próprias posições. Enquanto resiste, o Estado procura quebrá-la de outras maneiras. Informações sobre sua família chegam até ela sem que exista qualquer possibilidade de verificar o que é verdade.
A diretora conhece muito bem esse território. Mohammadi foi presa mais de uma vez por sua atuação política e passou por confinamento solitário no Irã. Ela já explicou que o longa não pretende reproduzir literalmente sua biografia, mas utiliza sentimentos, lembranças e marcas psicológicas de sua experiência e de outros presos políticos. A própria construção fragmentada do filme nasce dessa intenção de reproduzir uma consciência afetada pelo isolamento, onde presente, passado, lembrança e imaginação deixam de obedecer a fronteiras muito claras.
É por isso que “Roya” funciona menos como uma narrativa tradicional sobre prisão e mais como uma tentativa de colocar o espectador dentro das consequências dela.
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A câmera subjetiva não é um truque, é a primeira violência do filme
Os minutos iniciais são desconfortáveis e deliberadamente difíceis de assistir. Mohammadi evita estabelecer geograficamente a prisão. Não sabemos exatamente o tamanho dos corredores ou quem está em cada sala. A câmera tropeça, cai, levanta e é empurrada junto com Roya. O espaço permanece incompleto porque essa também é a experiência da personagem.
A opção poderia facilmente virar um exercício formal chamativo, mas existe uma razão muito concreta para ela. Durante seu próprio período de encarceramento, Mohammadi passou por deslocamentos dentro da prisão sem conseguir enxergar os ambientes ao redor. A limitação visual de Roya nasce dessa memória.
O mais interessante é perceber o que acontece quando a estratégia termina. Roya recebe uma saída temporária para comparecer a um funeral. Na prisão, havia sido levada a acreditar que seu pai havia morrido. Quando chega à cerimônia, descobre que foi enganada e que quem morreu foi sua irmã.
Nesse momento, o filme finalmente nos mostra o rosto que escondeu durante quase vinte minutos. Só que a liberdade visual não corresponde a uma liberdade real. Roya saiu fisicamente da cela, mas alguma coisa nela continuou lá.
Melisa Sözen interpreta uma mulher que parece ter perdido parte de si
A transformação da câmera encontra sua melhor companhia na atuação de Melisa Sözen. Roya praticamente não fala. O silêncio poderia reduzir a personagem a uma figura passiva, mas Sözen trabalha justamente na direção oposta. A atuação existe nos pequenos movimentos, na dificuldade de reagir, no olhar que demora a encontrar alguma coisa e na forma como o corpo parece estar permanentemente esperando que alguém apareça para arrastá-la de volta.
Existe uma Roya nas lembranças que atravessam o filme e outra depois do confinamento. A diferença entre elas é dolorosa.
Nas imagens anteriores à prisão, há mais espontaneidade, movimento e alguma luminosidade na personagem. Depois, parece que tudo isso foi retirado. Não necessariamente porque ela deixou de sentir, mas porque sua relação com o mundo foi quebrada.
O brilho desapareceu. E o filme não tenta recuperar esse brilho rapidamente para oferecer alguma sensação confortável de superação.
Essa é uma das decisões mais fortes de “Roya“. A liberdade não funciona como solução automática para o trauma. Abrir uma porta de prisão não devolve instantaneamente aquilo que aconteceu do outro lado dela.
Mohammadi comentou que, depois de sua própria experiência de isolamento, percebeu que havia saído da prisão como uma pessoa diferente daquela que entrou. É exatamente essa sensação que domina o filme.
Roya é um filme sobre alguém que já não consegue confiar nem na própria memória
Depois da saída temporária, o longa abandona progressivamente qualquer compromisso com uma linha temporal perfeitamente organizada. Roya encontra familiares, atravessa a cidade, recorda acontecimentos e observa situações que nem sempre sabemos se estão acontecendo naquele momento, se já aconteceram ou se existem apenas dentro de sua cabeça.
Essa fragmentação pode inicialmente parecer confusa, mas ela faz sentido dentro da experiência proposta pelo filme. O Estado não tortura Roya apenas fisicamente. Ele interfere naquilo que ela sabe. Dizem que seu pai morreu. Mostram imagens destinadas a destruir sua confiança nas pessoas próximas. Produzem versões da realidade que ela não possui meios de confirmar.
Depois de um período prolongado submetida a isso, sair da prisão não significa recuperar automaticamente a capacidade de distinguir o que aconteceu, o que foi inventado e o que sua própria mente reorganizou para conseguir continuar funcionando.
A estrutura do filme acompanha essa instabilidade. Mohammadi afirmou que construiu “Roya” tentando reproduzir algo próximo ao funcionamento do inconsciente, deixando imagem e som nem sempre completamente sincronizados e utilizando a luz intermitente como representação das rupturas provocadas pelo trauma. O resultado é um filme muito existencialista.
Existe uma questão política bastante concreta na origem de tudo, mas a narrativa passa a se preocupar também com algo mais íntimo: quem é uma pessoa depois que alguém destrói sua confiança na própria percepção? Roya está livre? Ainda é a mesma mulher? Quanto dela permaneceu naquela cela?
O filme não parece interessado em responder claramente a nenhuma dessas perguntas.

O ritmo lento exige do espectador mais do que alguns estarão dispostos a oferecer
Essa escolha também representa a principal dificuldade de “Roya“. É um filme de cenas longas, silêncios prolongados e poucos diálogos. Mohammadi não está preocupada em acelerar acontecimentos para gerar uma narrativa mais convencional de perseguição política. Em vários momentos, simplesmente acompanhamos Roya existindo depois da prisão.
Para um espectador distante daquela realidade e pouco familiarizado com esse tipo de cinema, a experiência pode parecer modorrenta. Há trechos em que a contemplação permanece por bastante tempo sem que uma ação aparentemente importante aconteça.
E nem sempre o filme consegue transformar essa lentidão em tensão. Essa é uma diferença importante.
O silêncio possui função narrativa. Os planos demorados possuem coerência com o estado psicológico da personagem. A estrutura fragmentada também está ligada ao trauma. Entender a intenção, porém, não significa que todos esses momentos funcionem com a mesma intensidade.
Há uma região intermediária do longa em que a repetição dessa apatia começa a diminuir o envolvimento. O espectador já entendeu que Roya não consegue se reconectar ao mundo, mas o filme continua insistindo nessa sensação antes de apresentar novas camadas para ela. É aí que Roya pode perder parte do público.
Não por ser necessário transformar uma experiência dessa natureza em entretenimento acelerado, mas porque existe uma diferença entre fazer o espectador sentir o tempo psicológico de uma personagem e simplesmente permitir que determinadas cenas durem mais do que conseguem sustentar.
O terceiro ato reorganiza aquilo que parecia disperso
Curiosamente, é quando o filme se aproxima do final que várias dessas escolhas passam a funcionar melhor em retrospecto. A fragmentação cresce, as fronteiras entre diferentes tempos ficam ainda menos confiáveis e aquilo que parecia apenas um retrato silencioso de uma mulher traumatizada começa a adquirir outra densidade.
As imagens anteriores retornam com novos sentidos. Situações se repetem. Memórias parecem invadir o presente. E a própria presença de Roya diante de si mesma transforma o filme em algo mais próximo de uma conversa entre diferentes versões da personagem.
É no terceiro ato que a proposta existencial ganha mais força. Até então, assistíamos a uma mulher tentando voltar para alguma espécie de vida. A partir daí, começamos a perceber que talvez a questão nunca tenha sido voltar.
A mulher que entrou naquela prisão não está simplesmente esperando do lado de fora para ser recuperada. Ela mudou. Essa constatação torna o filme mais doloroso porque recusa a narrativa tradicional de resistência segundo a qual sobreviver significa sair inteiro de uma experiência de violência.
Roya sobreviveu. Isso não significa que tenha saído intacta. E provavelmente é essa diferença que Mohammadi queira preservar.
A prisão mais difícil de abandonar não aparece na tela
Há uma imagem importante na maneira como o filme constrói seus espaços. Depois de sair de uma cela de poucos metros quadrados, paredes brancas desgastadas e sem banheiro ou privada disponível, Roya continua frequentando lugares fechados, escuros e parcialmente subterrâneos. A sensação de confinamento permanece mesmo quando nenhuma autoridade está fisicamente ao seu lado e isso não acontece por acaso.
Mohammadi já explicou que, depois de sua experiência na prisão, passou a se sentir mais segura vivendo em locais abaixo do nível da rua e procurando ambientes com mais de uma saída. O corpo havia aprendido uma lógica de sobrevivência que continuava operando mesmo depois da libertação.
Esse conhecimento íntimo do trauma ajuda “Roya” a escapar de uma representação mais óbvia da repressão. O filme poderia concentrar toda sua força nos interrogadores, nos espancamentos e no autoritarismo estatal. Tudo isso existe, principalmente nos minutos iniciais. Mas a parte mais incômoda vem depois.
É aí que você percebe que a violência não termina quando quem a praticou deixa de estar presente. Ela continua no corpo. Nos reflexos. Na maneira de olhar. Na dificuldade de confiar. Na memória.
Roya carrega a prisão consigo porque aquilo que aconteceu ali reorganizou a forma como ela experimenta o mundo. E é nesse ponto que o filme encontra sua dimensão política mais forte.
Destruir alguém não significa necessariamente matá-lo. Também é possível produzir uma pessoa que já não consegue reconhecer completamente a própria vida.
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Roya exige paciência, mas encontra força quando deixa de procurar respostas
Roya não é um filme fácil, e não só pelo assunto. Sua linguagem exige que o espectador aceite períodos longos de silêncio, uma narrativa fragmentada e uma personagem que raramente verbaliza aquilo que está sentindo. Para quem espera uma trama política conduzida por acontecimentos e diálogos, os 93 minutos podem parecer consideravelmente maiores.
Há momentos em que essa aposta na lentidão pesa contra o próprio filme. Mas existe coerência nessa escolha. Mahnaz Mohammadi não parece interessada em explicar como uma pessoa supera o confinamento. Ela está interessada justamente na possibilidade de que algumas experiências não sejam superadas dessa maneira.
Melisa Sözen entende isso muito bem. Sua atuação é quase inteiramente construída sobre aquilo que Roya perdeu. O rosto sem reação, o corpo cansado e os longos silêncios não pedem pena. Eles tornam visível uma ausência.
Quando o filme finalmente encontra mais ritmo no terceiro ato, não é porque começa a acontecer mais coisa. É porque entendemos melhor o que estivemos observando. A mulher que passou os primeiros vinte minutos escondida atrás da câmera aparece diante dela depois da prisão, mas nunca parece completamente presente.
O rosto finalmente existe. O problema é que uma parte daquela pessoa ficou em algum lugar que nós também quase não conseguimos enxergar. E, por isso, a sequência inicial é tão importante.
Durante vinte minutos, Roya nos coloca atrás dos olhos de uma mulher e nos impede de ver seu rosto. Quando finalmente podemos vê-lo, descobrimos que a prisão já começou a apagá-lo.
Esse filme foi assistido durante o Festival do Rio 2026.
Imagem Destacada: Divulgação/Pakfilm Gmbh



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