A sobrevivência da espécie humana depende principalmente de sua capacidade em se relacionar emocionalmente e fisicamente com seus iguais. Essa necessidade não é apenas pela procriação, mas também para fugir da solidão que destroi sua função social. Um indivíduo alheio ao contato físico renega qualquer tipo de afetividade. No filme ganhador do Urso de Ouro no festival de Berlim em 2018, “Não Me Toque”, a diretora Adina Pintille discorre sobre humanos que precisam reaprender a se conectar, e faz isso de forma totalmente incomum ao misturar metalinguagem, e ficção.

A trama acompanha inicialmente Laura (Laura Benson), uma mulher de meia idade que procura várias formas de conseguir contato físico novamente. Ela contrata “especialistas” pela internet que possam ajudá-la no processo. Todos os encontros são filmados por uma equipe de cinema coordenada por uma diretora. Também tenta respostas ao observar sessões de terapia feitas por pessoas com inúmeros tipos de deficiência. Elas são incentivadas a ficarem em duplas e a se tocarem, fazendo comentários posteriores sobre os sentimentos gerados por esses atos. Os diálogos nesses momentos são longos, com inúmeras pausas contemplativas. O uso de atores amadores, que provavelmente dão depoimentos reais, oferece substância para as cenas.

Mesmo com tudo isso, Laura segue isolada, e a câmera reforça esse estado com planos fechados em suas expressões melancólicas ou que excluem a profundidade de campo ao deformar os ambientes ao seu redor. A montagem e o design de som adicionam tensão na vida da mulher quando uma cena silenciosa é cortada a partir do som alto da batida de uma porta, chegando a assustar o espectador. Ela passa do repouso na primeira cena para o movimento urgente da segunda, mas continua sozinha nas ruas vazias.

 

Depois de algumas sequências na clínica para pessoas com deficiência, Tomas (Tomas Lemarquis), um de seus membros, passa a ganhar destaque. Ele é um homem que perdeu todos os pelos do corpo e ainda é apaixonado pela ex-namorada, adepta do sadomasoquismo, e a persegue pelas ruas. Direcionar um pouco as atenções a Tomas é interessante por mostrar seus delírios e angústias e também por que conta com a transição entre cenas mais bonita do filme. Nela, a câmera se aproxima de seu corpo nu até mostrar em detalhe seus poros lisos, após isso, ela se afasta novamente e revela o corpo da mulher que ele persegue. A rima visual é clara em transformar esses dois seres em um, mesmo que estejam afastados fisicamente.

Laura e Tomas se encontram e tentam superar suas angústias juntos, mesmo que para ela sejam quase intransponíveis ao ficar claro que sofreu algum tipo de abuso físico ou emocional no passado. Esta constatação vem nas cenas em que ela visita seu suposto marido em estado vegetativo no mesmo hospital onde conheceu Tomas. O desprezo que ela sente por aquele homem é palpável e parece extremamente doloroso todas as vezes que ela o vê. Laura se deixa abalar e se tranca ainda mais em sua prisão. A única forma de se libertar é quando ela entender que não se trata de deixar o que está fora entrar e sim deixar o que está dentro sair.

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo.

 

 

Show Full Content

About Author View Posts

Avatar
Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

Previous Crítica: A Casa que Jack Construiu
Next 3 Dicas para ver na Netflix

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close
Close