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Crítica: A Casa que Jack Construiu

Avatar de Rodrigo Chinchio
Rodrigo Chinchio
1 de novembro de 2018 3 Mins Read

AVISO: ESTA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS

A Casa que Jack Construiu 10Lars Von Trier nunca foi um cineasta fácil, seus filmes seguem caminhos subjetivos que abrem discussões acaloradas de quem os defendem com aqueles que os odeiam. Porém, gostando ou não, obras como “Melancolia”, “Anticristo” e “Ninfomaníaca” são vistas como representações artísticas respeitáveis, levando em consideração suas inovações narrativas e estéticas. Von Trier usa elementos externos e, principalmente, internos para criar. O interno toma forma em uma situação ou personagem que são a essência de seu criador. Por isso, o novo “A Casa que Jack Construiu”, pode ser entendido como uma espécie de carta de arrependimento ou tentativa de redenção por tudo que Von Trier foi acusado nos últimos anos: o banimento do festival de Cannes por ter dito que entendia Hitler, as acusações de misoginia que muitos veem impressos em alguns de seus longas e os maus-tratos a algumas atrizes com quem trabalhou. Claro que outros diretores famosos já podem ter feito filmes como terapia, mas não de forma tão clara como cineasta dinamarquês fez aqui.

A trama segue Jack (Matt Dillon), um serial killer com transtorno obsessivo compulsivo por limpeza, que executa suas vítimas – em sua maioria mulheres – e as mantêm em uma câmara frigorífica como se fossem uma coleção pessoal, para depois posicionar os corpos e tirar fotos do resultado, instituindo o que chama de arte da destruição. Ele é convicto de que está em um processo criativo durante aqueles atos bárbaros. Sua justificativa é que, na decomposição, o material orgânico se transforma em carbono e volta ao ambiente para criar, no futuro, novos organismos. Ou a vida a partir da morte. Paralelamente ele projeta e começa a erguer o que diz ser uma casa perfeita, porém, nunca consegue avançar além da estrutura. Quando não é o material que o desagrada é o terreno que está fora do padrão ideal. Incapacitado de construir algo, ele precisa destruir (e achar que constrói no processo) para se realizar artisticamente. As vítimas são telas em branco que precisam ser trabalhadas.

A Casa que Jack Construiu 8

Jack narra toda a sua trajetória em um diálogo em Off com o poeta romano Virgílio, que não vê nas aberrações do assassino algo sequer que o aproxime de um artista, fazendo o clássico e pós-moderno entrarem em conflito. A narrativa é construída em cinco capítulos e um epílogo, sendo cada capítulo um assassinato. No meio dos capítulos há ilustrações para explicar algum ponto filosófico da discussão. O que torna “A Casa que Jack Construiu” tão magistral é a evidente transposição de Von Trier para a tela na pele de Jack.  Como exercício de autocrítica, os crimes pelos quais é acusado (injustamente ou não) são representados pela violência gráfica e ideológica. Mulheres sofrem cruelmente, a arte nazista/fascista é exaltada, a sua própria arte é julgada e destruída e, enfim, é enviado ao inferno, onde caminha junto de Virgílio, seu guia até as profundezas onde será  sua morada eterna. A câmera não tem vergonha da violência e registra tudo sem cortes. Movendo-se em seu eixo horizontal e dando zooms rápidos nos rostos dos atores, parece ansiosa por mais sangue derramado ao vislumbrar potenciais presas antes de abatê-las. Fotografado com a crueza da granulação, o filme possui explosões de cores ao mostrar o furgão e as peças de roupa do psicopata em vermelho intenso, na mesma proporção do que é visto no cenário dos crimes e no inferno.

Jack/Von Trier tenta fugir do inferno, mas acaba caindo no seu último nível, onde estão as almas que mais sofrem. A tela preta vem a seguir e com ela a música de Ray Charles enche as caixas de som do cinema com os refrães: ”Hit the road Jack and don’t you come back no more, no more, no more, no more…”, deixando a dica de um possível final da carreira do cineasta ou seu recomeço em um próximo filme mais otimista.

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo

 

 

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Rodrigo Chinchio

Rodrigo Chinchio é colaborador da Woo! Magazine, onde escreve sobre cinema com a autoridade de quem se formou cinéfilo garimpando pérolas nas videolocadoras. Especialista em encontrar filmes que o algoritmo jamais recomendaria, mantém em seu quarto uma coleção de Blu-rays e DVDs que rivaliza com qualquer acervo físico do país, e que ainda o impede de ver a própria cama.

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