Crítica: O Amor Dá Trabalho

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O comediante Leandro Hassum tornou-se um dos nomes mais consolidados do audiovisual brasileiro através de franquias humorísticas campeãs de bilheteria, como “Até que a Sorte nos Separe” e “O Candidato Honesto”. Em comum, ambas as obras acompanham homens amaldiçoados pelo poder excessivo que lhes é conferido e como essa situação lhes faz abrir os olhos para os seus defeitos e para o mal que vinham jogando sobre os outros. Em larga medida, “O Amor Dá Trabalho” continua essa temática.

O protagonista da vez é Ancelmo (Hassum), uma figura que incorpora todo o imaginário negativo em torno do funcionalismo público. Extremamente egoísta e vagabunda, nos primeiros quinze minutos de filme, a personagem fura fila de elevador, desrespeita seus colegas de trabalho e intencionalmente atrasa o andamento de processos. Entretanto, numa situação cármica, um dia Ancelmo é esmagado pela pilha de arquivos situada ao lado de sua mesa. Morto por sua própria ineficiência e falta de consideração pelo próximo, o protagonista é enviado ao limbo, onde recebe uma segunda chance: para evitar ser enviado ao inferno, Ancelmo tem que realizar o desejo de Elizangela (Flávia Alessandra), mulher que deseja reencontrar e casar com o homem que a abandonou 12 anos antes.

Logo, percebe-se a constante: se a falência e a incapacidade de mentir eram os estopins para a mudança em “Até que a Sorte nos Separe” e “O Candidato Honesto”, em “O Amor Dá Trabalho” é a própria morte que exerce essa função. Não só isso: se no mundo material, Ancelmo poderia apenas empurrar seus afazeres com a barriga até o dia de sua aposentadoria sem se importar com o destino das pessoas que sentam em sua mesa todos os dias, no mundo espiritual, é o seu próprio destino que depende do bem-estar de alguém que ele nem conhece. Em suma, é quando a situação se inverte que o protagonista percebe a importância de seu papel na sociedade e da necessidade da empatia com o próximo.

Contudo, essa mesma consistência com o resto da filmografia de Hassum é o que mais impede “O Amor Dá Trabalho” de ser uma obra interessante. Apesar de, teoricamente, constituir uma personagem diferente, Ancelmo pouco se distingue dos protagonistas dos outros filmes do comediante. Numa abordagem do tipo “não se mexe em time que está ganhando”, Leandro Hassum simplesmente recicla o mesmo estilo de humor de suas franquias bem-sucedidas, trazendo pouca originalidade, e até mesmo camadas dramáticas, para a sua personagem. Além disso, a própria estrutura de “O Amor Dá Trabalho” pouco se adequa ao modus operandi típico de Hassum, uma vez que, na maior parte do tempo, Ancelmo aparece como fantasma, o que dificulta a sua efetiva interação com as outras personagens. Assim, muitas vezes o ator parece mais um comentarista de seu próprio filme, estranhamente separado do resto do elenco.

Sabendo disso, percebe-se por parte dos realizadores uma valorização do humor físico como forma de contornar esse problema: afinal, se um fantasma não pode falar diretamente com os vivos, ele pode pelo menos influenciar o ambiente que os cerca. Entretanto, essas cenas sofrem com a direção de Alê McHaddo, que mantém os planos excessivamente fechados, mostrando de forma truncada as interações entre as personagens e os objetos à sua volta. Os momentos em que Monique Alfradique leva uma bandeja de calzones na cabeça ou é atacada por objetos de banheiro – uma torneira que não fecha, um secador de mãos que não desliga – são os melhores exemplos para entender essa questão.

Por outro lado, McHaddo é responsável por trazer um pouco mais de ambição estética para os filmes de Leandro Hassum. Apesar de ainda ser, no todo, um longa filmado de forma bastante tradicional, “O Amor Dá Trabalho” está a anos-luz da pobreza visual dos trabalhos de Roberto Santucci (realizador de “Ate que a Sorte…” e “O Candidato Honesto”), marcados pelos enquadramentos preguiçosos e pela fotografia “lavada”. Com experiência no ramo da animação (ele é criador da série “Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma”, que tem Hassum como um dos dubladores), Alê McHaddo é bem-sucedido, principalmente, quando brinca com as proporções entre cenários e atores, como na sala de arquivos do limbo e na repartição pública onde Ancelmo trabalha.

Enfim, “O Amor Dá Trabalho” representa uma leve melhora de qualidade do “Universo Cinematográfico de Leandro Hassum”, porém muitas das falhas de seus filmes anteriores ainda se fazem presentes e prejudicam o produto final. Além disso, as atuações no piloto-automático da maior parte do elenco (interpretando os mesmos tipos de sempre) e a falta de química do casal principal, vivido por Flávia Alessandra e Bruno Garcia, pouco ajudam a elevar o material.


Imagens e vídeo: Divulgação/Downtown Filmes

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