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CríticaFilmes

Crítica: O Conto

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
31 de julho de 2018 3 Mins Read
“Sempre quis ter uma história para contar, mas nada nunca me aconteceu antes.”

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Em 2008, a documentarista Jennifer Fox (“Beirut – The Last Home Movie”) viajava o mundo para conhecer as histórias de diferentes mulheres. Seu projeto, a minissérie “Flying – Confessions of a Free Woman”, explorava questões como vida e sexualidade femininas nos dias atuais. Entre o conjunto de depoimentos coletados, faltava, no entanto, um de grande importância: o da própria cineasta. Uma década depois, o corajoso longa-metragem autobiográfico “O Conto” (The Tale, 2018), indicado a dois Emmys, investiga esse passado outrora inacessível.

Após voltar de uma filmagem internacional, a adulta Jennifer (Laura Dern), prestigiada diretora e professora, recebe uma preocupada ligação. Sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn), havia encontrado um antigo trabalho escolar. Intitulada “O Conto”, a redação narra o envolvimento da menina Jenny (Isabelle Nélisse) com a treinadora de cavalos Sra. G (Elizabeth Debicki) e o treinador de corrida Bill (Jason Ritter), por ela responsáveis durante os fins de semana.

Ao relatar as traumáticas recordações, Fox, documentarista de formação, opta, de outro modo, por um formato ficcional, dividido em duas épocas. Se, por um lado, a recriação dos eventos de 1973 produz chocantes imagens, por outro, a poderosa interpretação de Laura Dern (“Jurassic Park – Parque dos Dinossauros”) traduz uma personagem em conflito com as próprias memórias. Nesse sentido, importantes recursos marcam a direção. Conforme Jennifer relembra o passado, por exemplo, a jovem Isabelle Nélisse (“Mama”) substitui a mais velha Jessica Sarah Flaum. A pequena Jenny tinha, afinal, apenas treze anos, e não quinze, como antes imaginava a adulta. A fragilidade da miúda atriz, intercalada com dublês de corpo em cenas de estupro, constrói uma desconfortável experiência. Jennifer Fox, definitivamente, não poupa o espectador.

Apesar das encenações, contudo, o filme guarda forte veia documental. Em off, a cineasta, representada pela voz de Dern, interpela as figuras do passado. Dada a impossibilidade de voltar no tempo para entrevistá-las, sugerir respostas revela-se exercício terapêutico. Ilustrativa, uma sequência segue a criança Jenny pelo corredor do colégio enquanto interage com o superego sonoro da madura Jennifer. De início, os diretores de fotografia Denis Lenoir (“Espionagem na Rede”) e Ivan Strasburg (“Domingo Sangrento”) acompanham a conversa em plano fechado. Aos poucos, entretanto, afastam-se: a câmera continua andando, e a menina para. Nesse momento, Jennifer e Jenny finalmente se dissociam. Rompida a relação com seu “eu” infantil, congelado no tempo, a protagonista toma, então, uma corajosa decisão.3017033.jpg r 1920 1080 f jpg q x

Como uma boa documentarista, Fox busca, durante o longa-metragem, não respostas definitivas, mas sim provocadoras questões. Em vez de culpabilizar, portanto, a irresponsável professora, a negligente avó ou a comodista mãe, tenta, antes, entender a conjuntura na qual se inserem aquelas mulheres. “- Eu estava esperando que você me salvasse. De algum modo, na minha cabeça, não poderia ser mais ninguém. Por que você não me salvou? / – Ninguém me salvou.”, sintetiza um comovente diálogo. Em um mundo patriarcal, os verdadeiros vilões são masculinos, e isso Jennifer sabe bem.

Sete meses depois da estreia no Festival de Sundance, “O Conto”, produção original HBO, chega à televisão brasileira no próximo mês. Ainda que difícil, trata-se de uma obra extremamente necessária. A pesada mão de Jennifer Fox justifica-se, enfim, diante da urgência do tema, em voga, principalmente, a partir do movimento #MeToo. À coragem da cineasta soma-se, ainda, uma intensa atuação da indicada ao Emmy Laura Dern. Além da nomeação à categoria de melhor atriz em série limitada ou telefilme, o longa-metragem concorre, merecidamente, ao prêmio de melhor telefilme.

* O filme estreia no canal por assinatura HBO no dia 18 de agosto, sábado, às 22 h.

 

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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