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Crítica

Crítica: O Conto

“Sempre quis ter uma história para contar, mas nada nunca me aconteceu antes.”

Em 2008, a documentarista Jennifer Fox (“Beirut – The Last Home Movie”) viajava o mundo para conhecer as histórias de diferentes mulheres. Seu projeto, a minissérie “Flying – Confessions of a Free Woman”, explorava questões como vida e sexualidade femininas nos dias atuais. Entre o conjunto de depoimentos coletados, faltava, no entanto, um de grande importância: o da própria cineasta. Uma década depois, o corajoso longa-metragem autobiográfico “O Conto” (The Tale, 2018), indicado a dois Emmys, investiga esse passado outrora inacessível.

Após voltar de uma filmagem internacional, a adulta Jennifer (Laura Dern), prestigiada diretora e professora, recebe uma preocupada ligação. Sua mãe, Nettie (Ellen Burstyn), havia encontrado um antigo trabalho escolar. Intitulada “O Conto”, a redação narra o envolvimento da menina Jenny (Isabelle Nélisse) com a treinadora de cavalos Sra. G (Elizabeth Debicki) e o treinador de corrida Bill (Jason Ritter), por ela responsáveis durante os fins de semana.

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Ao relatar as traumáticas recordações, Fox, documentarista de formação, opta, de outro modo, por um formato ficcional, dividido em duas épocas. Se, por um lado, a recriação dos eventos de 1973 produz chocantes imagens, por outro, a poderosa interpretação de Laura Dern (“Jurassic Park – Parque dos Dinossauros”) traduz uma personagem em conflito com as próprias memórias. Nesse sentido, importantes recursos marcam a direção. Conforme Jennifer relembra o passado, por exemplo, a jovem Isabelle Nélisse (“Mama”) substitui a mais velha Jessica Sarah Flaum. A pequena Jenny tinha, afinal, apenas treze anos, e não quinze, como antes imaginava a adulta. A fragilidade da miúda atriz, intercalada com dublês de corpo em cenas de estupro, constrói uma desconfortável experiência. Jennifer Fox, definitivamente, não poupa o espectador.

Apesar das encenações, contudo, o filme guarda forte veia documental. Em off, a cineasta, representada pela voz de Dern, interpela as figuras do passado. Dada a impossibilidade de voltar no tempo para entrevistá-las, sugerir respostas revela-se exercício terapêutico. Ilustrativa, uma sequência segue a criança Jenny pelo corredor do colégio enquanto interage com o superego sonoro da madura Jennifer. De início, os diretores de fotografia Denis Lenoir (“Espionagem na Rede”) e Ivan Strasburg (“Domingo Sangrento”) acompanham a conversa em plano fechado. Aos poucos, entretanto, afastam-se: a câmera continua andando, e a menina para. Nesse momento, Jennifer e Jenny finalmente se dissociam. Rompida a relação com seu “eu” infantil, congelado no tempo, a protagonista toma, então, uma corajosa decisão.

Como uma boa documentarista, Fox busca, durante o longa-metragem, não respostas definitivas, mas sim provocadoras questões. Em vez de culpabilizar, portanto, a irresponsável professora, a negligente avó ou a comodista mãe, tenta, antes, entender a conjuntura na qual se inserem aquelas mulheres. “- Eu estava esperando que você me salvasse. De algum modo, na minha cabeça, não poderia ser mais ninguém. Por que você não me salvou? / – Ninguém me salvou.”, sintetiza um comovente diálogo. Em um mundo patriarcal, os verdadeiros vilões são masculinos, e isso Jennifer sabe bem.

Sete meses depois da estreia no Festival de Sundance, “O Conto”, produção original HBO, chega à televisão brasileira no próximo mês. Ainda que difícil, trata-se de uma obra extremamente necessária. A pesada mão de Jennifer Fox justifica-se, enfim, diante da urgência do tema, em voga, principalmente, a partir do movimento #MeToo. À coragem da cineasta soma-se, ainda, uma intensa atuação da indicada ao Emmy Laura Dern. Além da nomeação à categoria de melhor atriz em série limitada ou telefilme, o longa-metragem concorre, merecidamente, ao prêmio de melhor telefilme.

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* O filme estreia no canal por assinatura HBO no dia 18 de agosto, sábado, às 22 h.

 

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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