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Crítica: O Formidável

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Paulo Olivera
10 de outubro de 2017 4 Mins Read
Godard não é Good

O Formidável CartazO nosso título até pode parecer estranho, mas ele é uma brincadeira referente a personalidade de seu sujeito. Para quem não o conhece, o protagonista de “O Formidável” (“Le Redoutable”) é o cineasta vanguardista, franco-suíço, Jean-Luc Godard. Um dos principais nomes da Nouvelle Vague, famoso pelos filmes “Acossado” (1960), “Aphaville” (1965) e muitos outros, é quem ganha essa cômica homenagem/cinebiografia feita pelo melhor diretor, segundo o Oscar de 2012, Michel Hazanavicius.

O roteiro escrito pelo próprio diretor é baseado na autobiografia “Un an après” (Um Ano Depois) da atriz, modelo e escritora Anne Wiazemsky. Ela que foi a segunda mulher de Godard conta o que ocorreu nos anos ao lado do marido. É durante a produção de seu mais novo filme, “A Chinesa“, longa que narra a história de um grupo de jovens que tentam incorporar princípios maoístas ao seu cotidiano político, que Jean-Luc Godard (Louis Garrel) conhece Anne Wiazemsky (Stacy Martin) e, logo, os dois se apaixonam. Com o passar do tempo a relação vem se desgastando, a divulgação do novo filme e as carreiras de ambos culminam na degradação da relação. É nesse período que apresenta o ponto focal do filme, como o formidável gênio perdeu a mão de suas obras e acabou desapontando o publico como diretor.

Fugindo do esteriótipo do galã, Louis Garrel pode ser visto de uma maneira nova e divertida. Sua interpretação não tem muitas oscilações e faz de seu trabalho uma boa montagem. Contudo, a língua presa de seu personagem simplesmente desaparece e reaparece quando bem entende e é aí que sua construção perde a veracidade. Como personagem, só não criamos um ódio pelo Godard, por causa trabalho de Garrel e do humor dentro do roteiro. Enquanto isso, Stacy Martin faz o que se espera de uma modelo que virou atriz: seja bonita na tela. Ironicamente é esse o trabalho dela, estar ao lado de uma caricatura e responder de maneira leve e cordial aos acontecimentos. Mas sua poker face, para o espectador mais atento, muda a medida que as coisas vão acontecendo ou que o casamento vai acabando. Seu silencio e seu olhar é sua arma interpretativa, muito bem trabalhada.

O Formidável 02

Para adaptar em roteiro e a narrativa visual, Michel Hazanavicius não teve facilidade. O primeiro ponto é que desde o premiado e aclamado “O Artista” (2011), o publico esperava uma nova produção sobre a realização da própria arte e que devesse ser tão boa quanto seu antecessora. Se compara-las, de fato é essa produção não é, mas vendo-a de maneira unica, a comédia da vida de uma importante figura é bem configurada e narrada de maneira fruitiva e progressiva. Isso muito provavelmente veio com o trabalho na direção de atores e, obviamente com a montagem feita em parceria com a Anne-Sophie Bion. Mas o fato é que Michel é conhecido por fazer com que seus atores se sintam confortavelmente preparados para trazer a tona o que melhor que podem em cena. Sendo assim, aqui conseguimos sentir uma química impar entre o Garrel e Martin que nos salta os olhos.

A comédia é recheada de ironias, mas nenhuma delas supera o fato de como seu protagonista é mostrado. Se para alguns Godard era um gênio revolucionário, melhor cineasta e qualquer outra coisa, a visão de quem convivia com ele era bem diferente. Ao contrário do que a mídia acreditava e ainda perpetua, essa imagem de “le grand homme“, a narrativa vinda da sua ex mulher Anne é exatamente o contrário. Temos um protagonista infantil, inseguro, arrogante, ciumento e assim vai. Ou seja, o cineasta famoso, o talentoso, o genial, o original é na verdade um pé no saco, do tipo que você quer dar uma surra (e falar “Já passou da hora de crescer seu imbecil!”). É bem desse nível mesmo.

Não se sabe se essa perspectiva vinda de Anne é resultado do que a mídia fez com o ele, ou se isso sempre existiu. De qualquer forma, é preciso conhecer um pouco das ideias políticas do diretor para acompanhar melhor a proposta do longa. Usando de artifícios recorrentes, físicos e psicológicos, como os óculos do protagonista, falas em voz over sobre a identidade do casal e o questionamento da nudez dentro do cinema, o filme ganha sua graça. Mais do que um longa sobre uma figura icônica e sua intimidade, o ousado “O Formidável” é na verdade uma aula de cinema, mais especificamente uma aula sobre os bastidores de se fazer e ser o cinema. Nunca vamos ter a certeza de que essa caricatura era real, mas, depois desse destemor da produção, seguimos admirando o trabalho profissional e achando o lado pessoal patético.

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Tags:

Cinema FrancêsJean-Luc GodardLouis GarrelNouvelle Vague

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, mas reside no Rio de Janeiro há mais de 10 anos. Produtor de Arte e Objetos para o audiovisual, gypsy lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, workaholic e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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